quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

BRINCADEIRA

Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:
- Eu sei de tudo.
Depois de um silêncio, o outro disse:
- Como é que você soube?
- Não interessa. Sei de tudo.
- Me faz um favor. Não espalha.
- Vou pensar.
- Por amor de Deus.
- Está bem. Mas olha lá, hein?
Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.
- Sei de tudo.
- Co-como?
- Sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.
- Mas é impossível. Como é que você descobriu?
A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:
- Alguém mais sabe?
Outras se tornavam agressivas:
- Está bem, você sabe. E daí?
- Daí nada. Só queria que você soubesse que eu sei.
- Se você contar para alguém, eu...
- Depende de você.
- De mim, como?
- Se você andar na linha, eu não conto.
- Certo.
Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.
- Eu sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.
- Não sei. O que é que você sabe?
- Não se faça de inocente.
- Mas eu realmente não sei.
- Vem com essa.
- Você não sabe nada.
- Ah, quer dizer que existe alguma coisa para saber, mas eu é que não sei o que é?
- Não existe nada.
- Olha que eu vou espalhar...
- Pode espalhar que é mentira.
- Como é que você sabe o que eu vou espalhar?
- Qualquer coisa que você espalhar será mentira.
- Está bem. Vou espalhar.
Mas dali a pouco veio um telefonema.
- Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre aquilo.
- Aquilo o quê?
- Você sabe.
Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:
- Você contou para alguém?
- Ainda não.
- Puxa. Obrigado.
Com o tempo, ganhou reputação. Era de confiança. Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.
- Por quê eu? - quis saber.
- A posição é de muita responsabilidade - disse o amigo. - Recomendei você.
- Por quê?
- Pela sua discrição.
Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos, mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem informado, era um gentleman. Até que recebeu um telefonema. Uma voz misteriosa que disse:
- Sei de tudo.
- Co-como?
- Sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.
Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam seu desaparecimento repentino. Investigaram. O que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto numa praia remota. Os vizinhos contam que uma noite vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que a voz que mais se ouvia era a dele, gritando:
- Era brincadeira! Era brincadeira!
Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado. Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo.
Sabia demais.

Luís Fernando Veríssimo

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

TILT-SHIFT

Tilt-shift é uma técnica de fotografia que dá a sensação para o observador de estar vendo uma montagem com miniaturas quando o que está vendo é a mais pura realidade. A novidade é que essa técnica está sendo usada em vídeos também. Corridas de caminhão, shows de rock, passeios na praia ensolarada: fica tudo trabalhado na fofura.

sábado, 15 de janeiro de 2011

LIXO

Encontraram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom-dia.
- Bom-dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612.
- É...
- Eu ainda não o conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu o quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmmm. Notei também que o senhor usa muita comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo.
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante. Mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que esstou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É...
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha.
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?

Luís Fernando Veríssimo

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

CASABLANCA DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Bom, quem não assistiu Casablanca e diz gostar de cinema está em falta. Esse filme despretencioso acabou virando um clássico justamente por ter sido, desde sua concepção, um filme despretencioso sem maiores intenções. Discussões e informações sobre este filme não faltam. O que vou fazer aqui é apresentar a continuação que foi dada por Luis Fernando Veríssimo em um conto. Para os que assistiram, uma chance de relembrar. Para os que não viram, uma oportunidade para conhecer um pouco sobre a obra.



As time goes by


Conheci Rick Blaine em Paris, não faz muito. Ele tem uma espelunca perto da Madeleine que pega todos os americanos bêbados que o Harry's Bar expulsa. Está com 70 anos, mas não parece ter mais que 69. Os olhos empapuçados são os mesmos, mas o cabelo se foi e a barriga só parou de crescer porque não havia mais lugar atrás do balcão. A princípio ele negou que fosse Rick.

- Não conheço nenhum Rick.

- Está lá fora. Um letreiro enorme. Rick's Cafe Americain.

- Está? Faz anos que não vou lá fora. O que você quer?

- Um bourbon. E alguma coisa para comer.

Escolhi um sanduíche de uma longa lista e Rick gritou o pedido para um negrão na cozinha. Reconheci o negrão. Era o pianista do café do Rick em Casablanca. Perguntei por que ele não tocava mais piano.

- Sam? Porque só sabia uma música. A clientela não aguentava mais. Ele também faz sempre o mesmo sanduíche. Mas ninguém vem aqui pela comida.

Cantarolei um trecho de As time goes by. Perguntei:

- O que você faria se ela entrasse por aquela porta agora?

- Diria: "Um chazinho, vovó?". O passado não volta.

- Voltou uma vez. De todos os bares do mundo, ela tinha que escolher logo o seu, em Casablanca, para entrar.

- Não volta mais.

Mas ele olhou, rápido, quando a porta se abriu de repente. Era um americano que vinha pedir-lhe dinheiro para voltar aos Estados Unidos. Estava fugindo de Mitterrand. Rick o ignorou. Perguntou o que eu queria além do bourbon e do sanduíche de Sam, que estava péssimo.

- Sempre quis saber o que aconteceu depois que ela embarcou naquele avião com Victor Laszlo e você e o inspetor Louis se afastaram, desaparecendo no nevoeiro.

- Passei 40 anos no nevoeiro - respondeu ele. Obviamente, não estava disposto a contar muita coisa.

- Eu tenho uma tese.

Ele sorriu:

- Mais uma...

- Você foi o primeiro a se desencantar com as grandes causas. Você era o seu próprio território neutro. Victor Laszlo era o cara engajado. Deve ter morrido cedo e levado alguns outros idealistas com ele, pensando que estavam salvando o mundo para a democracia e os bons sentimentos. Você nunca teve ilusões sobre a humanidade. Era um cínico. Mas também era um romântico. Podia ter-se livrado de Laszlo e ficado com ela, mas preferiu o grande gesto e se igualar a Laszlo aos olhos dela. Por quê?

- Você se lembra do rosto dela naquele instante?

Eu me lembrava. Mesmo através do nevoeiro, eu me lembrava. Ele tinha razão. Por um rosto daqueles, a gente sacrifica até a falta de ideais.

A porta se abriu de novo e nós dois olhamos rápido. Mas era apenas outro bêbado.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

AFINAL, O QUE QUEREM AS MULHERES?



Obcecado por responder “afinal, o que querem as mulheres?” – pergunta formulada, e nunca elucidada, por Sigmund Freud, o criador da psicanálise –, André Newmann é um jovem escritor às voltas com sua tese de doutorado em Psicologia. Para concluir seu estudo, ele se aventura em perigosos territórios, como salões de beleza, clubes e sex shops, colhendo depoimentos das mais diversas mulheres.
Em sua busca pela compreensão do feminino, André conta com a ajuda de seu orientador-psicanalista, Dr. Klein, que nos delírios de seu pupilo é enxergado como o próprio pesquisador austríaco nascido em meados do século XIX.
Sua dedicação é tanta, que a tese se mistura à sua vida, e vice-versa. Isso, porém, acaba destruindo o seu relacionamento de cinco anos com a artista plástica Lívia, e para tentar preencher tal vazio, o escritor se mete em encontros desastrosos e cômicos, além do excesso em um mergulho hedonista de bebedeiras e noites mal dormidas.
Com seis episódios (a prova viva de que tudo que é bom dura pouco...), o seriado foi escrito por João Paulo Cuenca, com coautoria de Michel Melamed e Cecília Giannetti, e texto final do diretor Luiz Fernando Carvalho.
O que me chamou a atenção pra assistir a princípio, foi a atuação da bela Paola Oliveira (que foi linda, como sempre), e o tema freudiano. :P
A série foi exibida pela Rede Globo em novembro/dezembro, pra quem não viu, já está disponível pra download. Enjoy it!

http://www.seriadoscompletos.net/2010/11/download-afinal-o-que-querem-as.html

A PARTIDA

É um ótimo filme com um excelente roteiro, porém é um filme de arte. Proibido para fãs dos blockbusters e megaproduções hollywoodyanas.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

MELHORANDO A QUALIDADE DE UMA IMAGEM UTILIZANDO O MODO LAB





A mudança é um sutil mas faz uma grande diferença na qualidade das cores da imagem, especialmente quando impressas. E é algo relativamente fácil que você faz em três tempos com o Photoshop. Escolha a imagem que quer trabalhar. Aperte f7 para chamar as camadas (layers) e duplique a camada (botão auxiliar do mouse sobre a camada>duplicar camada). Clique em Image>Mode>Lab Color sem dar o Flaten Image para não achatar as camadas. Clique na guia Canais (Channels) e duplique o Lightness. No Lightness copy que você criou vá em Filtro (Filter)e use o Unsharp Mask com os valores 100 de Amount e 0,5 de Radius. Na layer "a" vá em Image>Apply Image e deixe a imagem em modo overlay 50% para ganhar saturação nos azuis e amarelos. Na layer "b" vá em Imagem>Apply Image e deixe a imagem em modo Overlay 50% para ganhar saturação de cores azuis e amarelas. Selecione o canal Lightness copy. Apague o olhinho desta camada e ative todas as outras. Trabalhando com o canal Lightness copy vá em Image>Aply Image e deixe em modo normal, 80% de opacidade. Isso serve para dar mais detalhes e definição ao "esqueleto" da foto. Volte no Image>Aply Image e deixe em modo Screen, 30% de opacidade. Isso serve para deixar a foto mais clara, menos pesada. Volte para as layers e deixe a layer 1 com 80% de opacidade. O resultado final é uma foto mais viva, mais leve, e que reproduz com mais fidelidade oq ue foi visto no momento em que a foto foi tirada.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

AQUARELA EM 3 VERSÕES

A música Aquarela de Toquinho e Vinicius de Moraes parece ter nascido para fazer parceria com o desenho animado. Veja as versões que já foram criadas:
Para comerciais da Faber Castell
Em 1983

Em 1995

Conforme os computadores e os softwares foram se popularizando no Brasil foram surgindo novas versões da música. Aqui uma animação que foi feita em Flash e acabou sendo incorporada ao material didático de uma famosa escola particular.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

NATAL AZEDO COM WALTER LIMONADA

O Limonada lançou o seu novo Rap. Pra quem curte, tem curiosidade ou quer dar risada está aqui o novo clipe!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

PICHAÇÃO É ARTE?

Rola por aí um papo de que grafite é arte. E que pixação - ou "pixo" mesmo - é lixo. Puro lixo. Dizem até que o governo deveria fazer um esforço para converter pichadores em grafiteiros. Só não contam que a pichação também é uma manifestação urbana autêntica, que tem um código próprio - geralmente indecifrável para quem está de fora. Tem regras: por exemplo, não pega bem pichar em cima da pichação alheia. O grafite também é respeitado, porque não é porque as linguagens são diferentes que os artistas urbanos vão brigar entre si. Mal comparando com as artes tradicionais, grafite é imagem, pixo é texto. E ambos dividiram as paredes da célebre Fundação Cartier, em Paris, que organizou uma grande mostra de arte urbana. E aí, é ou não?

PROGRAMAÇÃO DOS CINECLUBES DE SÃO BERNARDO DO CAMPO

Cineclube Biblioteca Pública Municipal Monteiro Lobato
Rua Jurubatuba, 1415, Centro. Tel: 4330-2888. Sempre às 18h.

* UM PEIXE CHAMADO VANDA - 13/01
* NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA - 20/01
* O HOMEM NU - 27/01

Cineclube Biblioteca Pública Municipal Guimarães Rosa
Avenida João Firmino, 900, Bairro Assunção. Tel: 4351-5422

* A LISTA DE SCHINDLER - 07/01 - 19H
* SHREK - 09/01 - 15H
* O HOMEM QUE VIROU SUCO - 14/01 - 19H
* OS INCRÍVEIS - 15/01 - 15H
* BETE BALANÇO - 21/01 - 19H
* VIDA DE INSETO - 22/01 - 15H
* ALELUIA GRETCHEN - 28/01 - 19H
* TOY STORY, O FILME - 29/01 - 15H
* ANIMAÇÕES PARA CRIANÇAS - 07/01 - 15H
* ANIMAÇÕES PARA A PRIMEIRA INFÂNCIA - 14/01 - 15H
* HOUVE UMA VEZ DOIS VERÕES - 19/01 - 15H
* BRASA ADORMECIDA - 21/01 - 15H
* SÃO PAULO S/A - 26/01 - 15H
* AMOR & CIA - 28/01 - 15H

Cineclube Biblioteca Pública Municipal Manuel Bandeira
Rua Bauru, 21, Baeta Neves, Tel: 4336-8214

* CARROS - 10/01 - 14H30
* OS INCRÍVEIS - 17/01 - 14H30
* WALL-E - 24/01 - 14H30
* RATATOUILLE - 31/01 - 14H30

APLICATIVO ORIENTA SOBRE OS SINTOMAS DO CORONAVÍRUS

https://coronabr.com.br/