domingo, 21 de dezembro de 2014

EM TERRA DE CEGO de HERBERT GEORGE WELLS

A trezentas milhas ou mais do Chimborazo, e a cem milhas das neves do Cotopaxi, nas regiões mais selvagens dos Andes equatoriais, ali fica esse misterioso vale entre as montanhas, separado do mundo dos seres humanos, a Terra dos Cegos. Há muitos anos esse vale estava tão aberto ao mundo, de modo que os seres humanos podiam ali chegar afinal, através de medonhos desfiladeiros e por sobre um passo gelado, dentro de suas pradarias amenas; e lá realmente chegaram seres humanos, uma família ou pouco mais de mestiços peruanos, fugindo da cobiça e da tirania de um malvado governante espanhol. Então houve a estupenda erupção do Mindobamba, quando a noite durou dezessete dias em Quito, a água ficou fervendo em Yaguachi e todos os peixes mortos chegavam flutuando até mesmo a Guaiaquil; por toda parte, ao longo das encostas do Pacífico, houve deslizamentos de terra, rápidos degelos e inundações súbitas, e todo um lado da velha crista do Arauca se desprendeu e veio abaixo em meio a um ruído como trovões, e a erupção separou para sempre a Terra dos Cegos dos passos exploradores dos seres humanos. Mas
aconteceu de um desses colonizadores iniciais estar do lado de cá dos desfiladeiros quando o mundo tremeu tão terrivelmente, e por força ele teve de esquecer sua mulher e filho, todos os amigos e posses que tinha deixado lá em cima, e teve de começar de novo no mundo mais abaixo. Ele começou de novo, mas a cegueira o afetou, e ele morreu dos castigos nas minas; mas a história que contou fez nascer uma lenda que paira ao longo de todas as cordilheiras dos Andes até hoje. Ele falou da sua razão para se aventurar naquele lugar protegido, em que ele tinha sido inicialmente levado amarrado a uma lhama, junto a uma vasta carga de instrumentos, quando era criança. O vale, disse ele, tinha tudo que o coração humano podia desejar — água doce, pastos, clima ameno, encostas de rico solo marrom com manchas de um arbusto que dava um fruto excelente, e de um lado grandes florestas pendentes de pinheiros que seguravam as avalanches. Longe, bem longe, de três lados, imensas cavernas de rocha verde-acinzentada eram revestidas de paredes de gelo; mas a geleira não vinha na direção dos habitantes, porém fluía para longe através das encostas mais afastadas, e só de vez em quando
grandes massas de gelo caíam do lado do vale. Nesse vale nem chovia, nem
nevava, mas as fontes abundantes proporcionavam uma rica pastagem verde, que a irrigação espalhava por todo o espaço do vale. Os colonizadores haviam feito um bom trabalho naquele lugar. Seus animais viviam bem e se multiplicaram, e havia uma só coisa que toldava a sua felicidade. E no entanto, bastava para toldá-la sobremaneira. Uma estranha doença os atingiu, fazendo que não só todas as crianças nascidas ali — e, na verdade, várias crianças mais velhas também — fossem atacadas pela cegueira. Foi para buscar algum encantamento ou antídoto contra essa praga da cegueira que ele tinha, com grande esforço, perigo e dificuldade, voltado atrás pelo desfiladeiro. Naqueles dias, nesses casos, os seres humanos não pensavam em germes e infecções, mas em pecados; e parece para ele que a razão dessa aflição devia residir na negligência desses imigrantes sem sacerdotes, que deixaram de erguer um templo assim que entraram no vale. Ele queria que um templo — bonito, barato, efetivo — fosse erguido no vale; queria relíquias e coisas assim, e todos aqueles poderosos símbolos da fé, objetos abençoados, medalhas misteriosas e rezas. Na sua bolsa tinha uma barra de prata cuja origem ele não se dispunha a revelar; insistia, com algo da insistência do mentiroso inábil, em que não havia prata nenhuma no vale. Eles tinham todos juntado seu dinheiro e ornamentos, disse ele, para comprar a ajuda divina contra seu mal, já que lá em cima tinham pouca necessidade desse tesouro. Imagino esse jovem montanhês de olhos fracos, queimado de sol, magro e ansioso, febril, segurando febrilmente a aba do chapéu, um homem totalmente desacostumado aos modos do mundo mais embaixo, contando essa história a algum sacerdote de olhos agudos, atencioso, antes da grande convulsão; posso vê-lo depois tentar voltar com remédios pios e infalíveis contra aquela perturbação, e a decepção infinita com que ele deve ter se defrontado com a imensidão despencada onde antes havia o desfiladeiro. Mas o resto de sua história de azares está perdido para mim, exceto que sei de sua infeliz morte após vários anos. Pobre homem perdido daquela região remota! O curso d'água que antes formava o desfiladeiro agora sai estrepitosamente da boca de uma caverna rochosa, e a lenda desencadeada por sua história infeliz e mal contada se desenvolveu numa história sobre uma raça de seres humanos cegos vivendo em algum lugar "para lá das montanhas", a qual ainda se pode ouvir hoje. E em meio à pequena população daquele vale agora isolado e esquecido, a doença seguiu seu curso. Os velhos se tornaram tateantes e parcialmente cegos, os jovens viam apenas enevoadamente, e as crianças que nasceram deles nunca enxergaram nada. Mas a vida era muito fácil naquela bacia rodeada de neve, sem espinheiros ou eglantinas, sem insetos nocivos nem outro animal, exceto a raça mansa de lhamas que eles tinham carregado e levado e que subiram os leitos dos rios estreitados nos desfiladeiros sobre os quais tinham chegado. Os que viam tinham se tornado parcialmente cegos tão gradativamente que mal notaram sua perda de visão. Eles guiaram os jovens sem visão aqui e ali, até que estes conhecessem maravilhosamente bem todo o vale, e quando, no fim, a visão morreu entre eles, a raça sobreviveu. Tiveram até tempo para se adaptarem ao controle do fogo, que acendiam cuidadosamente em fogões de pedra. Eram um tipo simples de gente no começo, analfabetos, só ligeiramente tocados pela civilização espanhola, mas com algo da tradição das artes do velho Peru e de sua filosofia perdida. As gerações se seguiram. Esqueceram muitas coisas; descobriram outras. Sua tradição do mundo mais amplo de que tinham vindo adquiriu um acento incerto. Em todas as coisas, salvo na visão, eles eram fortes e hábeis, e depois o acaso do nascimento e da herança fazia nascer entre eles alguém que tinha uma mente original e que podia falar e persuadi-los, e logo depois surgia outro. Esses dois morreram, deixando seu legado, e a pequena comunidade cresceu em número e em conhecimento, e enfrentou e resolveu problemas sociais e econômicos que surgiram. As gerações se seguiram umas às outras. Chegou uma hora em que nasceu uma criança que estava a quinze gerações daquele ancestral que saíra do vale com uma barra de prata para buscar a ajuda de Deus, e que nunca voltara. Por volta dessa época aconteceu que um homem veio do mundo externo para essa comunidade. E esta é a história desse homem. Era um montanhês da região perto de Quito, um homem que descera até o mar e tinha visto o mundo, um leitor de livros numa maneira original, um homem de inteligência aguda e empreendedor, e fora contratado por uma equipe de ingleses que tinha vindo ao Equador para escalar montanhas, para substituir um de seus três guias suíços que ficara doente. Escalaram aqui, escalaram acolá, e então veio a tentativa no Parascotopetl, o Matterhorn dos Andes, em que esse homem se perdeu para o mundo externo. A história do acidente foi escrita uma dezena de vezes. A narrativa de Pointer é a melhor. Ele conta como a pequena equipe lutou para subir o caminho difícil e quase vertical até o sopé do último e maior precipício, e como construíram um abrigo noturno em meio à neve numa pequena reentrância da rocha, com um toque de poder dramático real, como depois descobriram que Núñez tinha ido embora. Gritaram, e não houve resposta; gritaram e assobiaram e, pelo restante daquela noite, não dormiram mais. Quando amanheceu, viram os traços de sua queda. Parece impossível que esta tenha podido ocorrer sem que nenhum som tivesse sido emitido. Escorregara para leste, rumo ao lado desconhecido da montanha; muito abaixo tinha se chocado com uma aguda protuberância de gelo, e continuado a cair em meio a uma avalancha de neve. Sua pista ia direta à beira de um precipício medonho, e, para lá disso, tudo estava escondido. Muito, muito lá embaixo, e enevoadas pela distância, eles podiam ver as árvores subindo de um vale estreito, fechado — a perdida Terra dos Cegos. Mas não puderam saber que era a Terra dos Cegos, nem distingui-la de modo nenhum de qualquer outro trecho estreito de vale lá em cima. Nervosos com esse desastre, abandonaram sua tentativa à tarde, e Pointer foi convocado para a guerra antes que pudesse empreender uma nova escalada. Até hoje o Parascotopetl se ergue numa crista inconquistada, e o abrigo de Pointer está se arruinando entre as neves, sem que ninguém tenha voltado a visitá-lo.
E o homem que caiu sobreviveu.
No fim da encosta ele caiu mil pés, e caiu no meio de uma nuvem de gelo sobre uma encosta de neve ainda mais escarpada do que a de cima. Descendo, ele girou, bateu o corpo e ficou insensível, mas sem um único osso quebrado. E no fim veio a dar em encostas mais suaves, e finalmente parou de rolar e ficou imóvel, enterrado em meio a um monte macio das massas brancas que o tinham acompanhado e salvado. Voltou a si com uma tênue idéia de que estava doente, de cama; então percebeu sua posição com a inteligência de um montanhista, e se livrou da neve, e, depois de um descanso, andou até que viu as estrelas. Descansou deitado sobre o peito por um tempo, imaginando onde estava e o que lhe tinha acontecido.
Examinou seus membros e descobriu que vários botões tinham desaparecido, e que o casaco estava em volta de sua cabeça. A faca tinha sumido do bolso e o chapéu tinha se perdido, embora ele o tivesse amarrado sob o queixo. Lembrou que estivera procurando pedras soltas para erguer seu trecho da parede do abrigo quando escorregara. Sua machadinha de gelo tinha desaparecido.
Chegou à conclusão de que devia ter caído, e olhou para cima para ver, exagerada pela luz fantasmagórica da lua nascente, a tremenda queda que tinha sofrido. Por um momento, permaneceu olhando vaziamente para aquela vasta parede de rocha pálida que culminava lá em cima, surgindo de momento a momento de uma maré rasante de escuridão. A beleza fantasmagórica, misteriosa, o manteve parado por um tempo, e então ele foi tomado de um paroxismo de riso soluçante...
Depois de um grande intervalo, ele se tornou consciente de que estava perto da beira mais baixa da neve. Abaixo, sob o que era agora uma encosta enluarada e praticável, ele viu a aparição escura e interrompida de grama entre as rochas. Lutou para se levantar, com todas as articulações e membros doloridos, livrou-se com dificuldade da neve solta amontoada em torno dele, rumou para baixo até que chegou à grama e ali caiu, mais do que deitou, ao lado de uma pedra, bebeu profundamente do cantil em seu bolso interno e, instantaneamente, caiu no sono...
Foi acordado pelo cantar dos pássaros nas árvores bem lá embaixo. Achou-se num pequeno monte ao pé de um vasto precipício, e percebeu que estava com ranhuras causadas pela descida que ele e a neve tinham sofrido. Acima, em frente dele, outra parede de rocha se erguia contra o céu. O desfiladeiro entre esses precipícios ia para o leste e para o oeste e estava cheio da luz do sol matinal, que iluminava rumo ao oeste a massa de montanha caída que tinha fechado o desfiladeiro em descida.
Rumo abaixo parecia haver um precipício igualmente agudo, mas, atrás da neve no canal da geleira, achou uma espécie de canaleta gotejante com água de neve, pela qual um homem desesperado podia aventurar-se. Descobriu que isso era mais fácil do que parecia, e chegou afinal a outro monte desolado, e então depois de uma escalada na rocha sem nenhuma dificuldade particular, a uma aguda encosta de árvores. Aprumou-se e voltou o rosto para cima do desfiladeiro, pois viu que este se abria lá em cima para prados verdes, entre os quais ele vislumbrou bastante distintamente um grupo de cabanas de pedra de construção não familiar. Às vezes o seu progresso era como escalar ao longo da face de uma parede, e depois de um tempo o sol nascente parou de brilhar sobre o desfiladeiro, as vozes dos pássaros morreram ao longe, e o ar se tornou frio e escuro em torno dele. Mas o vale distante, com suas casas, era por isso mesmo cada vez mais brilhante. Chegou depois ao talude, e entre as rochas notou — pois era um homem observador — uma samambaia não familiar que parecia sair das reentrâncias com mãos intensamente verdes. Pegou uma ou duas folhas, mastigou a espiga da nervura e a achou comestível. Por volta do meio-dia saiu afinal da garganta do desfiladeiro para o planalto e a luz do sol. Estava cansado e com os membros rígidos; sentou à sombra de uma rocha, encheu seu cantil com água de uma fonte e bebeu, e ficou descansando um tempo antes de seguir rumo às casas.
Elas pareceram muito estranhas para seus olhos e, na verdade, todo o aspecto
daquele vale se tornou, à medida que o olhava, mais estranho e menos familiar. A maior parte de sua superfície era de luxuriante prado verde, manchado por muitas flores bonitas, irrigado com cuidado extraordinário; e exibindo indicações de colheita sistemática peça por peça. Bem alto e cercando o vale havia um muro, e o que parecia ser um canal circular, do qual vinham os filetes d'água que alimentavam as plantas da pradaria, e nas encostas mais altas, acima do canal, rebanhos de lhamas comiam o ralo pasto. Cercados, aparentemente abrigos ou manjedouras para as lhamas, se erguiam contra o muro fronteiriço aqui e ali. As correntes de irrigação corriam até se juntarem num canal principal rumo ao centro do vale, abaixo, e esse canal era cercado de cada lado por um muro à altura do peito. Isso dava uma estranha qualidade urbana a esse lugar recluso, qualidade grandemente realçada pelo fato de que vários caminhos, pavimentados com pedras brancas e pretas, e cada um com uma curiosa pequena curva em cada esquina, iam para lá e para cá de modo ordenado. As casas da aldeia central eram bem diferentes da aglomeração casual e amontoada das aldeias montanhesas que ele conhecia; as casas ficavam numa fileira contínua de cada lado de uma rua central surpreendentemente limpa; aqui e ali, sua fachada multicolorida era perfurada por uma porta, e nem uma única janela quebrava sua frontaria harmoniosa. Eram multicoloridas com extraordinária irregularidade, manchadas com um tipo de cimento que era às vezes cinza, às vezes pardo, às vezes cor de ardósia ou marrom-escuro; e foi a visão desse colorido selvagem que trouxe primeiro a palavra "cego" aos pensamentos do explorador. "O bom homem que fez isso", pensou, "deve ter sido tão cego quanto um morcego."
Ele desceu um trecho agudo, e assim chegou ao muro e ao canal que corriam em torno do vale, perto de onde o último despejava seu excesso nas profundezas do desfiladeiro num fio fino e ondulante de cascata. Agora ele podia ver alguns homens e mulheres descansando em montes empilhados de grama, como se estivessem gozando de uma sesta, na parte mais remota do prado, e perto da aldeia algumas crianças deitadas, e então, mais perto, três homens carregando baldes em armações presas aos ombros, ao longo de um pequeno caminho que levava do muro circundante rumo às casas. Esses três homens vestiam trajes de lã de lhama e tinham botas e cintos de couro e usavam chapéus de lã com aba traseira e protetores de ouvidos. Seguiam um ao outro como se fosse uma fila, andando devagar e bocejando enquanto andavam, como se fossem homens que tivessem ficado acordados a noite inteira. Havia algo tão reconfortante de prosperidade e respeitabilidade em seu comportamento que, depois de hesitar um momento, Núñez se ergueu para a frente tão visivelmente quanto possível, por cima da rocha, e deu um grande grito que ecoou em torno do vale.
Os três homens pararam e moveram as cabeças como se estivessem olhando em torno deles. Viraram o rosto para lá e para cá, e Núnez gesticulou largamente. Mas eles não pareceram vê-lo, apesar de todos os seus gestos, e, depois de um tempo, dirigindo-se para as montanhas longínquas à direita, eles gritaram como em resposta. Núnez berrou de novo, e enquanto gesticulava de novo sem resultado, a palavra "cego" surgiu bem clara em seus pensamentos. "Esses loucos devem ser cegos", disse.
Quando, no fim, depois de muita gritaria e ira, Núnez atravessou o curso d'água por sobre uma pequena ponte, passou por um portão no muro e se aproximou deles, teve certeza de que eles eram cegos. Estava convencido de que essa era a Terra dos Cegos da qual falavam as lendas. A convicção havia se apossado dele, assim como um sentido de grande e na verdade invejável aventura. Os três estavam parados um ao lado do outro, não olhando para ele, mas dirigindo os ouvidos para ele, avaliando-o por seus passos não familiares. Eles se mantinham bem perto um do outro, como homens um tanto amedrontados, e ele podia ver suas pálpebras fechadas e afundadas, como se os próprios globos oculares ali embaixo tivessem afundado. Havia uma expressão próxima do pavor em seus rostos.
"Um homem", disse um deles, em espanhol mal reconhecível, "é um homem — um homem ou um espírito — descendo das rochas."
Mas Núnez avançou com os passos confiantes de um jovem que está começando a vida. Todas as antigas histórias do vale perdido e da Terra dos Cegos voltaram à sua mente, e em meio a seus pensamentos passava esse velho provérbio, como se fosse um refrão:
"Em terra de cego, quem tem um olho é rei."
"Em terra de cego, quem tem um olho é rei."
E muito cortesmente os cumprimentou. Falou a eles utilizando os olhos.
"De onde ele vem, irmão Pedro?", perguntou um deles.
"Desceu das rochas."
"Venho do alto das montanhas", disse Núñez, "fora deste lugar aqui — onde os
homens podem ver. De perto de Bogotá, onde há cem mil pessoas e não se vê o fim da cidade."
"Não se vê?", murmurou Pedro. "Não se vê?"
"Ele vem", disse o segundo cego, "de para lá das rochas."
O tecido de seus casacos, viu Núnez, era modelado curiosamente, cada um com um tipo diferente de costura.
Eles o assustaram com um movimento simultâneo rumo ao seu encontro, cada um com uma mão estendida. Ele recuou diante do avanço desses dedos abertos.
"Venha cá", disse o terceiro cego, seguindo o movimento de Núnez e o agarrando.
E eles seguraram Núñez e o apalparam, não dizendo nenhuma palavra mais
enquanto não terminaram.
"Cuidado", disse ele, sentindo um dedo no olho, e descobriu que eles achavam esse órgão uma coisa esquisita nele, com suas pálpebras piscantes. Eles repetiram o apalpamento.
"Uma criatura estranha, Correa", disse o de nome Pedro. "Sinta a dureza de seus cabelos. Como o pêlo de uma lhama."
"Ele é áspero como as rochas que o pariram", disse Correa, investigando o queixo não barbeado de Núñez e sua mão ligeiramente úmida. "Talvez se torne menos áspero." Núñez lutou um pouco enquanto era examinado, mas eles o seguraram firmemente.
"Cuidado", disse de novo.
"Ele fala", disse o terceiro homem. "Certamente é um homem."
"Ugh!", disse Pedro, ao experimentar a aspereza do casaco de Núñez.
"E você veio para o mundo?", perguntou Pedro.
"Saí do mundo. Por montanhas e geleiras; logo ali acima, a meio caminho do sol.
Saí do grande, do enorme mundo que desce, em doze dias de jornada, rumo ao mar."
Eles pareciam lhe prestar pouca atenção. "Nossos pais nos disseram que os
homens podem ser feitos pelas forças da natureza", disse Correa. "É o calor das coisas e a umidade, e a podridão — podridão."
"Vamos levá-lo aos anciãos", disse Pedro.
"Grite antes", disse Correa, "para que as crianças não tenham medo. Esta é uma ocasião importante."
Então eles gritaram, e Pedro foi na frente e tomou Núñez pela mão, para levá-lo às casas.
Núñez afastou a mão. "Posso ver", disse.
"Ver?", disse Correa.
"Ver", disse Núnez, voltando-se para ele, e tropeçou no balde de Pedro.
"Os sentidos dele ainda são imperfeitos", disse o terceiro cego. "Tropeça e fala palavras sem sentido. Levem-no pela mão."
"Como vocês quiserem", disse Núñez, e foi conduzido pela mão, rindo.
Parecia que eles não sabiam de nada sobre a visão.
Bem, com o tempo ele os ensinaria.
Ouviu pessoas gritando, e viu algumas figuras se reunindo no caminho do meio da aldeia.
Achou que aquilo o enervou e impacientou mais do que tinha esperado, aquele
primeiro encontro com a população da Terra dos Cegos. O lugar parecia maior, à medida que se aproximava dele, e as cores manchadas mais esquisitas, e uma multidão de crianças, homens e mulheres (as mulheres e as garotas, notou com agrado, tinham algumas delas rostos bastante bonitos, apesar de seus olhos estarem fechados e afundados) chegou junto dele, segurando-o, tocando-o com mãos suaves e sensíveis, cheirando-o e ouvindo cada palavra que ele dizia. Algumas das garotas e das crianças, entretanto, se mantinham longe, como se tivessem medo, e realmente sua voz parecia mais áspera e rude em relação aos tons deles, mais suaves. Eles o cercaram. Seus três guias se mantiveram perto dele, com um ar de propriedade, e diziam e repetiam: "Um homem selvagem que veio das rochas".
"De Bogotá", disse Núnez. "De Bogotá. Para lá das cristas das montanhas."
"Um homem selvagem — falando palavras selvagens", disse Pedro. "Vocês ouviram isso — Bogotá? Sua mente ainda não está formada. Ele tem apenas os começos da fala."
Um garotinho acariciou a mão de Núnez. "Bogotá", disse, debochando.
"Ai! Uma cidade, comparada à sua aldeia. Venho do grande mundo — onde os
homens têm olhos e vêem."
"O nome dele é Bogotá", disseram.
"Tropeçou", disse Correa, "tropeçou duas vezes enquanto chegávamos aqui."
"Levem-no para os anciãos."
E eles o empurraram subitamente porta adentro, numa sala tão escura quanto piche, a não ser no outro extremo, onde brilhava fracamente uma pequena fogueira. A multidão fechou o caminho atrás dele e bloqueou quase completamente a luz do dia e, antes que ele pudesse se deter, tinha caído de cabeça aos pés de um homem sentado. Seu braço, estendido, bateu no rosto de alguém enquanto caía; ele sentiu o macio toque na face e ouviu um grito de raiva, e por um momento lutou contra várias mãos que o agarraram. Era uma luta desigual. Ele se deu conta da situação e ficou quieto.
"Caí", disse. "Não pude ver nesta escuridão profunda."
Houve uma pausa, como se as pessoas não vistas em torno dele tentassem
entender suas palavras. Então a voz de Correa disse: "Ele acaba de ser criado.
Tropeça quando anda e mistura palavras que não querem dizer nada quando fala".
Outros também disseram coisas que ele mal ouviu ou entendeu imperfeitamente.
"Posso me levantar?", perguntou, numa pausa do vozerio. "Não vou lutar com vocês de novo."
Eles se consultaram entre si e o deixaram levantar-se.
A voz de um homem mais velho começou a interrogá-lo, e Núnez se viu tentando explicar o grande mundo do qual ele tinha caído, e o céu, as montanhas, a visão e outras tantas maravilhas, àqueles anciãos sentados no escuro na Terra dos Cegos.
E eles não acreditavam em nada e não entendiam nada do que ele lhes dizia, fato bem fora das expectativas de Núnez. Há catorze gerações essas pessoas eram cegas e separadas do mundo da visão; os nomes de todas as coisas referentes à visão tinham desaparecido e mudado; a história do mundo lá fora tinha desaparecido e mudado para uma história infantil; e eles tinham deixado de se preocupar com qualquer coisa para lá das encostas rochosas de seu muro circundante. Cegos de gênio tinham surgido entre eles e questionado os restos de crença e tradição que o povo trazia consigo de seus dias de visão, e haviam posto de lado todas essas coisas como fantasias ociosas e as substituído com explicações novas e mais críveis. Muita coisa de sua imaginação tinha murchado junto com seus olhos; e eles criaram para si mesmos novas imaginações com seus ouvidos e dedos cada vez mais sensíveis. Lentamente Núnez se deu conta disso; que sua expectativa de admiração e reverência em relação à sua origem e seus dons não iria frutificar; e que depois que sua precária tentativa de lhes explicar a visão tinha sido posta de lado como a versão confusa de um ser recém-criado descrevendo as maravilhas de suas sensações incoerentes, ele se conformou, um tanto espantado, em ouvir a instrução deles. E o mais velho dos cegos explicou a ele a vida, a filosofia e a religião, como o mundo (querendo dizer seu vale) tinha sido inicialmente um vazio oco nas rochas, e então surgiram, primeiro, coisas inanimadas sem o dom do tato, e depois as lhamas e umas poucas outras criaturas que tinham pouco sentido das coisas, e então os seres humanos, e enfim os anjos, que se podiam ouvir cantando e se agitando, mas os quais ninguém podia tocar, história que muito espantou Núnez, até que ele pensou nos pássaros.
O ancião continuou contando a Núnez como o tempo tinha sido dividido entre o
quente e o frio, que são os equivalentes dos cegos ao dia e à noite, e como era bom dormir no quente e trabalhar no frio, de modo que agora, não fosse por sua chegada, toda a cidade dos cegos estaria dormindo. Ele disse que Núñez devia ter sido criado especialmente para aprender e servir a sabedoria que eles tinham adquirido e que, apesar de toda a sua incoerência mental e todo o seu comportamento estabanado ele precisava ter coragem, e fazer o melhor para aprender, e diante disso toda a multidão na porta assentiu de modo encoraja-dor. Ele disse que a noite — pois os cegos chamam noite a seu dia — estava agora muito avançada, de modo que todos deviam ir para casa dormir. Perguntou a Núnez se este sabia dormir e Núnez disse que sabia, mas que antes de dormir ele queria comer.
Trouxeram-lhe comida — leite de lhama numa cuia, e pão duro salgado — e o
levaram a um lugar solitário de modo que eles não o ouvissem comer, e depois ele deveria dormir até que o frio da noite na montanha os acordasse para começar seu dia de novo. Mas Núñez não dormiu de jeito nenhum.
Em vez disso, ele sentou no lugar em que o deixaram, descansando os membros e fazendo girar e girar na mente as circunstâncias inesperadas de sua chegada.
De vez em quando ele ria, às vezes divertido, às vezes indignado.
"Mente não formada!", disse. 'Ainda não formou os sentidos! Mal sabem que estão insultando o seu rei e mestre enviado do céu. Vejo que preciso trazê-los à razão.
Deixem-me pensar — deixem-me pensar."
Ainda estava pensando quando o sol se pôs.
Núñez tinha um olho para todas as coisas bonitas, e lhe pareceu que o fulgor
brilhante sobre os campos nevados e as geleiras em torno do vale era a coisa mais bela que ele jamais tinha visto. Seus olhos foram daquela glória inacessível para a aldeia e para os campos irrigados, que afundavam rapidamente no lusco-fusco, e de repente uma onda de emoção o tomou, e ele deu graças a Deus, do fundo do coração, por ter sido dado a ele o dom da visão.
Ouviu uma voz chamando por ele a partir da aldeia: "Olá, aí, Bogotá! Venha cá!".
Com isso ele interrompeu o sorriso. Ele iria mostrar a essa gente, de uma vez por todas, o que a visão pode fazer por um ser humano. Iriam procurá-lo, mas não o achariam.
"Não se mova, Bogotá", disse a voz.
Ele riu sem fazer barulho e deu dois passos sorrateiros para fora do caminho.
"Não pise na grama, Bogotá; isso é proibido."
Núnez não tinha ouvido o ruído que ele próprio fizera. Parou, espantado.
O dono da voz veio correndo ao caminho pintalgado em direção de Núnez.
Este voltou para o caminho. “Aqui estou", disse.
"Por que você não veio quando o chamei?", disse o cego. "Você precisa ser levado como uma criança? Não pode ouvir o caminho enquanto anda?"
Núñez riu. "Posso vê-lo", disse.
"Não existe a palavra ver", disse o cego, após uma pausa. "Pare com essa loucura e siga o som de meus pés."
Núñez o seguiu, um tanto aborrecido.
"Minha vez vai chegar", disse.
"Você vai aprender", respondeu o cego. "Há muita coisa para aprender no mundo."
"Nunca lhe disseram 'Em terra de cego, quem tem um olho é rei'?"
"O que é cego?", perguntou o cego, despreocupadamente, por cima do ombro.
Quatro dias se passaram, e o quinto dia encontrou o Rei dos Cegos ainda incógnito, como um estranho desajeitado e inútil entre seus súditos.
Núñez descobriu que era muito mais difícil se proclamar rei do que tinha suposto, e, no intervalo, enquanto meditava em seu golpe de Estado, ele fez o que lhe diziam e aprendeu as maneiras e costumes da Terra dos Cegos. Achou que trabalhar e andar durante a noite era uma coisa particularmente exaustiva, e decidiu que essa era a primeira coisa que iria mudar.
Essa gente levava uma vida simples, laboriosa, com todos os elementos de virtude e felicidade como essas coisas podem ser entendidas pelos seres humanos.
Trabalhavam, mas não de modo opressivo; tinham comida e roupa suficientes para suas necessidades; tinham dias e estações de descanso; tocavam música e dançavam muito, havia amor entre eles, e crianças pequenas.
Era maravilhoso ver a confiança e a precisão com que eles caminhavam em seu mundo bem ordenado. Tudo tinha sido feito para se adequar às suas necessidades;
cada um dos caminhos que se irradiavam na área do vale tinha um ângulo constante em relação aos outros, e cada um deles era distinguido por uma cunha especial sobre sua curva; tinham sido limpos e arrumados, havia muito tempo, todos os obstáculos e irregularidades do caminho ou da pradaria; todos os seus métodos e procedimentos se originavam naturalmente de suas necessidades específicas. Seus sentidos tinham se tornado maravilhosamente agudos; podiam ouvir e avaliar o menor gesto de um ser humano a uma dezena de passos — podiam ouvir até a batida de seu coração. A entonação havia muito tinha substituído as expressões do rosto, e os toques pelo tato tinham substituído os gestos indicativos; seu trabalho com enxada, pá e ancinho era tão fácil e confiante como a jardinagem pode ser. Seu sentido do olfato era extraordinariamente agudo; podiam distinguir diferenças individuais tão rapidamente quanto um cachorro, e eles faziam o manejo das lhamas, que viviam entre as rochas lá em cima e vinham ao muro buscar comida e abrigo, com facilidade e confiança. Foi somente quando, no fim, Núñez procurou se
afirmar perante eles, que descobriu quão fáceis e confiantes eram os movimentos deles.
Ele se rebelou somente depois de tentar persuadi-los.
Tentou no início, em várias ocasiões, explicar-lhes a visão. "Escutem-me", disse. "Há coisas em mim que vocês não entendem."
Umas vezes um ou dois deles o atendiam; sentavam com os rostos abaixados e os ouvidos voltados inteligentemente na direção de Núñez, e ele fez o melhor que pôde para lhes explicar o que era ver. Entre seus ouvintes havia uma garota, com pálpebras menos vermelhas e afundadas do que os outros, de modo que quase se podia imaginar que ela estava escondendo os olhos, e a qual ele esperava
especialmente convencer. Ele falou das belezas da visão, de olhar as montanhas, do céu e do nascer do sol, e eles o ouviam com incredulidade divertida que, depois, se tornou condenatória. Disseram-lhe que não havia montanhas de modo nenhum, mas que o fim das rochas onde as lhamas pastavam era na verdade o fim do mundo, dali partia um teto cavernoso do universo, de onde vinham o orvalho e as avalanches; e quando ele se manteve firme na afirmação de que o mundo não tinha fim nem teto, ao contrário do que eles supunham, eles disseram que seus pensamentos eram pecaminosos. Até o ponto em que ele podia descrever o céu, as nuvens e as estrelas para eles, tudo isso lhes parecia um vácuo monstruoso, um terrível vazio no lugar do teto liso sobre as coisas no qual acreditavam — era um artigo de fé entre eles que o teto da caverna era plenamente liso ao toque. Núñez percebeu que de algum modo ele os chocava, desistiu de vez desse assunto, e tentou mostrar-lhes o valor prático da visão. Uma manhã viu Pedro no caminho chamado Dezessete, vindo para as casas centrais, mas ainda longe demais para a audição ou o olfato, e lhes contou isso. "Em pouco tempo", previu, "Pedro estará aqui." Um velho notou que Pedro não tinha nada para fazer no caminho Dezessete e então, como que para confirmar isso, Pedro, quando chegou mais perto, virou e caminhou transversalmente para o caminho Dez, e então caminhou com passos ágeis rumo ao muro externo. Eles ridicularizaram Núñez quando Pedro não chegou, e depois, quando Núfiez fez perguntas a Pedro para esclarecer o assunto, Pedro negou e o enfrentou, e daí em diante se tornou hostil a Núñez.
Então ele os induziu a deixá-lo subir bem longe pelas encostas da pradaria, rumo ao muro, com um companheiro que concordasse, e para ele prometeu descrever tudo que acontecia entre as casas. Ele notou certas idas e vindas, mas as coisas que realmente pareciam ter significado para aquela gente aconteciam dentro ou atrás das casas sem janelas — as únicas coisas de que tomavam nota para testá-lo — e dessas coisas ele não podia ver ou dizer nada, e foi após o fracasso dessa tentativa, e da ridicularização que eles não conseguiram reprimir, que ele recorreu à força.
Pensou em segurar uma pá e de repente derrubar um ou dois ao chão, e assim em combate leal mostrar a vantagem dos olhos. Chegou, até, com essa resolução, a segurar sua pá, e então descobriu algo de novo a seu respeito, que era impossível para ele agredir um cego a sangue-frio.
Hesitou e descobriu que todos haviam percebido que ele agarrara a pá. Eles ficaram em alerta, com suas cabeças de lado, e ouvidos inclinados rumo a ele, para detectar o que ele iria fazer em seguida.
"Abaixe essa pá", disse um deles, e ele sentiu uma espécie de horror indizível.
Tendeu a obedecer.
Então empurrou um dos cegos contra a parede de uma casa, e fugiu para fora da aldeia. Foi por sobre uma de suas pradarias, deixando um rastro de grama esmagada por seus pés, e depois sentou ao lado de um dos caminhos deles. Sentiu algo da expectativa que acomete todos os homens no começo de uma luta, mas uma perplexidade maior. Começou a perceber que não se pode nem lutar com ânimo
contra criaturas que estão numa situação mental diferente da sua. Ao longe, viu um
grupo de homens carregando pás e cacetes, saindo da rua de casas, e avançando
em filas que se espalhavam pelos vários caminhos na direção dele. Avançavam
devagar, falando freqüentemente um ao outro, e sempre e sempre toda a fileira
parava, cheirava o ar e escutava.
Na primeira vez em que fizeram isso, Núñez riu. Mas depois já não riu.
Um deles percebeu a trilha de Núnez na grama do prado, e veio inclinando-se e sentindo o caminho ao longo da trilha.
Durante cinco minutos Núñez observou o lento espalhamento da fileira de cegos, e então sua vaga disposição de fazer alguma coisa se tornou frenética. Levantou-se, deu um ou dois passos em direção ao muro circular, virou-se e voltou um pouco atrás. Ali estavam todos eles parados, formando uma meia-lua, silenciosos e procurando escutar.
Ele também ficou parado, agarrando firmemente sua pá com as duas mãos. Devia atacá-los?
A pulsação nos seus ouvidos corria ao ritmo de "Em terra de cego, quem tem um olho é rei!".
Devia atacá-los?
Olhou para trás rumo ao muro alto e inescalável — inescalável por causa de seu cimento liso, mas também perfurado com muitas portinholas, e olhou para a linha que se aproximava de seus perseguidores. Atrás desses, agora vinham outros da rua das casas.
Devia atacá-los?
"Bogotá!", um deles chamou. "Bogotá, onde está você?"
Ele agarrou sua pá ainda mais firmemente e avançou pela pradaria rumo ao lugar das habitações, e diretamente, enquanto andava, eles convergiram em torno dele.
"Vou golpeá-los se me tocarem", jurou. "Por Deus, vou fazer isso. Vou golpeá-los."
Berrou: "Olhem aqui, vou fazer o que quiser neste vale. Vocês estão ouvindo? Vou fazer o que quero e ir aonde quero".
Eles estavam rapidamente se movendo rumo a ele, tateando, mas se movendo
rapidamente. Era como brincar de cabra-cega, com todo mundo cego menos um.
"Peguem-no!", gritou um deles. Núnez se viu no arco de uma curva solta de
perseguidores. Sentiu subitamente que precisava entrar resolutamente em ação.
"Vocês não entendem", gritou numa voz que pretendia ser imperiosa e resoluta, e que foi fraca. "Vocês são cegos, e eu posso ver. Deixem-me em paz!"
"Bogotá! Largue essa pá, e saia da grama!"
Essa última ordem, grotesca com sua familiaridade civilizada, produziu um acesso de raiva.
"Vou machucá-los", disse Núnez, soluçando de emoção. "Por Deus, vou machucá-los.
Deixem-me em paz!"
Começou a correr, sem saber claramente para onde correr. Correu para longe do cego mais próximo, pois era um horror golpeá-lo. Parou, então fez uma tentativa para escapar das fileiras deles que o cercavam. Rumou para onde havia um grande vazio, e os homens de cada lado, com uma rápida percepção da aproximação de seus passos, juntaram-se uns aos outros, preenchendo o vazio. Núñez pulou para a frente, e então viu que iria ser capturado e golpeou alguém com a pá. Núnez sentiu o macio choque de mão e braço, e o homem estava caído com um grito de dor, e Núñez tinha conseguido passar!
Tinha conseguido passar! E então estava de novo perto da rua das casas, e cegos, girando pás e estacas, estavam correndo com uma espécie de rapidez calculada para lá e para cá.
Núñez ouviu passos atrás dele ainda a tempo, e descobriu um homem alto correndo para a frente e procurando, pelos sons, golpear Núñez. Este perdeu a paciência, atirou a pá que caiu a uma jarda do seu antagonista, virou-se e fugiu, berrando alto enquanto fintava outro.
Estava tomado pelo pânico. Correu furiosamente para lá e para cá, fintando com a pá quando não havia nenhuma necessidade de fintar, e, em sua ansiedade para enxergar de todos os lados de uma vez só, acabou tropeçando. Por um momento ficou caído e eles ouviram sua queda. Longe, no muro circular, uma portinhola parecia o Paraíso, e ele correu selvagemente rumo a ela. Nem olhou seus perseguidores até que chegou à portinhola, tropeçou em meio à ponte, engatinhouum pouco pelas rochas, para a surpresa e desgosto de uma jovem lha-ma que saiu pulando de sua visão, e deitou resfolegando, sem ar.
E assim acabou o seu golpe de Estado.
Ficou fora do muro do vale dos cegos duas noites e dois dias, sem comida ou
abrigo, e meditou sobre o inesperado. Durante essas meditações ele repetia muito freqüentemente, e sempre com um tom cada vez mais profundo de derrisão, o provérbio que explodira: "Em terra de cego, quem tem um olho é rei. Pensou sobretudo em maneiras de lutar e conquistar esse povo, e se tornou claro para ele que não havia uma maneira factível. Não tinha armas, e agora seria difícil obtê-las.
A doença da civilização o tomara mesmo em Bogotá, e ele não podia achar meios em si mesmo de descer a ponto de assassinar um cego. É claro que, se fizesse isso, poderia ditar os termos sob ameaça de assassiná-los a todos. Mas, mais cedo ou mais tarde, precisava dormir!...
Também tentou achar comida entre os pinheiros, sentir conforto sob ramos de
pinhas enquanto o sereno caía à noite, e — com menos confiança — capturar uma
lhama por artimanha para tentar matá-la — talvez batendo nela com uma pedra — e assim, talvez, comer um pouco dela. Mas a lhama duvidou dele e o encarou com desconfiados olhos castanhos, e cuspiu quando ele chegou perto. Ele teve medo e acessos de tremores no segundo dia. Finalmente rastejou de volta para o muro da Terra dos Cegos e tentou entrar num acordo. Rastejou ao longo do curso d'água, gritando, até que dois cegos vieram ao portão e falaram com ele.
"Eu enlouqueci", disse. "Mas eu tinha acabado de ser criado."
Eles disseram que isso era melhor.
Ele lhes contou que estava mais sábio agora, e se arrependia de tudo que tinha
feito.
Então chorou sem querer, pois estava agora muito fraco e doente, e eles tomaram isso como um bom sinal.
Perguntaram se ele ainda pensava que podia "ver".
"Não", disse. "Isso era loucura. A palavra não quer dizer nada — menos do que
nada!"
Perguntaram a ele o que havia acima.
"Cerca de cem vezes a altura de um homem há um teto sobre o mundo — de rocha — e liso, muito liso...." Irrompeu de novo em lágrimas histéricas. “Antes que vocês me perguntem mais coisas, me dêem comida ou vou morrer."
Ficou esperando duros castigos, mas esse povo cego era capaz de tolerância.
Encararam sua rebelião como mais uma prova da idiotia e inferioridade gerais dele, e, depois que o chicotearam, o indicaram para fazer o trabalho mais simples e mais pesado que tinham para alguém fazer, e ele, não vendo outro modo de vida, fez submisso o que lhe disseram para fazer.
Ficou doente uns dias, e eles cuidaram dele bondosamente. Isso fez se intensificar sua submissão. Mas eles insistiram em que ele permanecesse no escuro, e essa era uma grande miséria. E filósofos cegos vinham e falavam a ele da pecaminosa leviandade de sua mente, e o repreenderam de tal maneira por suas dúvidas sobre a tampa de rocha que cobria sua panela cósmica que ele quase duvidou se na verdade não era vítima de alucinações ao não ver a tampa lá em cima.
Então Núñez se tornou um cidadão da Terra dos Cegos, e esse povo deixou de ser um povo generalizado; eles se tornaram individualidades familiares para ele, enquanto o mundo além das montanhas se tornou cada vez mais remoto e irreal.
Havia Yacob, seu patrão, homem bondoso quando não estava aborrecido; havia Pedro, sobrinho de Yacob, e havia Medina-saroté, a filha caçula de Yacob. Ela era pouco estimada no mundo dos cegos, porque tinha um rosto anguloso e não aquela maciez satisfatória, vítrea, que é o ideal, para o cego, da beleza feminina; mas Núñez achou-a linda desde o início, e depois a coisa mais linda neste mundo. As pálpebras fechadas dela não eram vermelhas e afundadas como era comum no vale, mas parecia que podiam se abrir de novo a qualquer momento, e ela tinha longos cílios, o que levava os outros a julgarem seu rosto gravemente desfigurado. E sua voz era forte, e não satisfazia a audição aguda dos jovens do vale. Assim, não tinha amante.
Chegou a hora em que Núñez pensou que, se pudesse conquistá-la, ele poderia resignar-se a viver no vale pelo restante de seus dias.
Ele a observava; buscava oportunidades de lhe prestar pequenos serviços, e depois percebeu que ela o observava. Uma vez, numa reunião num dia de descanso, eles sentaram lado a lado à tênue luz das estrelas, e a música era doce a seus ouvidos.
A mão dele pousou sobre a dela e ele ousou apertá-la. E então, ternamente, ela fezpressão de volta. E um dia, quando tomavam sua refeição no escuro, ele sentiu a mão dela procurando suavemente por ele e, como por acaso, o fogo crepitou e ele viu a ternura do rosto dela.
Ele tentou falar com ela.
Foi procurá-la um dia quando ela estava sentada ao luar fiando. A lua a tornava uma coisa de prata e de mistério. Ele sentou aos pés dela e disse que a amava, e disse quão linda ela parecia para ele. Tinha a voz de um amante, falava com uma terna reverência que chegava perto da adoração, e ela nunca tinha sido antes tocada pela adoração. Ela não deu a ele nenhuma resposta definida, mas ficou claro que suaspalavras lhe agradavam.
Depois disso ele falava com ela sempre que tinha oportunidade. O vale se tornou omundo para ele, e o mundo para além das montanhas, em que os homens viviam à luz do sol, parecia não mais do que um conto de fadas que ele iria um dia sussurrar aos ouvidos dela. Com muito cuidado, experimentando de várias formas, ele timidamente falou a ela da visão.
A visão parecia a ela a mais poética das fantasias, e ela ouvia a descrição dele das estrelas e das montanhas e da própria beleza dela iluminada de branco como se fosse uma indulgência pecaminosa. Ela não acreditava, podia entender apenas parte do que ele dizia, mas estava misteriosamente encantada e pareceu a ele que ela entendia tudo.
O amor dele perdeu a adoração imobilizadora inicial e cresceu em coragem. Depois ele decidiu pedi-la em casamento a Yacob e aos anciãos, mas ela ficou com medo e foi retardando as coisas. E foi uma de suas irmãs mais velhas a primeira a contar a Yacob que Medina-saroté e Núnez estavam apaixonados um pelo outro.
Houve desde o início oposição muito grande ao casamento de Núnez e Medinasaroté; não tanto porque a valorizavam, mas porque tinham Núnez como um ser à parte, um idiota, incompetente, uma coisa abaixo do nível permissível para um ser humano. As irmãs dela se opuseram brutalmente ao casamento, como se este fosse deixá-las a todas mal-afamadas; e o velho Yacob, embora tivesse formado uma espécie de afeição por esse servo desajeitado e obediente, sacudiu a cabeça e disse que não podia ser. Os homens jovens ficaram todos irritados com a idéia de corromper a raça, e um foi tão longe na sua indignação a ponto de xingar e agredir Núñez. Este reagiu à agressão. Então, pela primeira vez, descobriu uma vantagem em poder ver, mesmo ao lusco-fusco, e depois que essa luta terminou, ninguém mais se dispôs a levantar a mão contra ele. Mas ainda achavam impossível o casamento.
O velho Yacob tinha uma certa ternura por sua filha pequena, e ficou abalado ao tê-la chorando em seu ombro.
"Você percebe, querida, ele é um idiota. Sofre de alucinações; não pode fazer nada direito." "Sei disso", chorou Medina-saroté. "Mas ele está melhor do que já foi. Está se tornando melhor. E ele é forte, querido papai, e bom — mais forte e mais bondoso do que qualquer outro homem no mundo. E me ama, e, papai, eu o amo." O velho Yacob ficou muito preocupado ao descobrir que ela estava inconsolável e, além disso — o que o deixava ainda mais preocupado —, ele gostava de Núñez por muitas razões. Então compareceu à câmara do conselho com os outros anciãos, observou o rumo da conversa, e disse, no momento adequado:
"Ele está melhor do que já foi. Muito provavelmente um dia vamos julgá-lo tão bom
quanto nós próprios".
Então um dos anciãos, depois de pensar profundamente, teve uma idéia. Ele era o grande médico entre aquelas pessoas, seu curandeiro, tinha uma mente muito filosófica e inventiva, e a idéia de curar Núñez de suas peculiaridades o atraía. Um dia, quando Yacob estava presente, ele voltou ao tópico de Núñez.
"Examinei Bogotá", disse, "e o caso está mais claro para mim. Penso que muito
provavelmente ele pode ser curado."
"Isso é o que sempre esperei", disse o velho Yacob.
"O cérebro dele é que é afetado", disse o médico cego.
Os anciãos fizeram um murmúrio de assentimento.
"Agora, o que o afeta?"
"Ah!", disse o velho Yacob.
"Isto", disse o médico, respondendo à sua própria pergunta. "Essas estranhas coisas que chamamos os olhos, e que existem para fazer uma depressão macia e agradável no rosto, são doentes, no caso de Bogotá, de uma maneira tal que afeta seu cérebro. São excessivamente estendidas, ele tem cílios e suas pálpebras se movem, e conseqüentemente seu cérebro está num estado de constante irritação e distração."
"Sim?", disse o velho Yacob. "Sim?"
"E acho que posso dizer com razoável certeza que, para curá-lo completamente, tudo que precisamos fazer é uma cirurgia bem fácil — ou seja, extrair esses corpos irritantes."
"E então ele ficará são?"
"E então ele ficará perfeitamente são e será um cidadão bem respeitável."
"Graças aos céus pela ciência!", disse o velho Yacob, e correu para contar a Núñez suas felizes esperanças.
Mas o modo como Núnez recebeu a boa-nova surpreendeu Yacob como sendo frio e decepcionante.
"Poderia se pensar", disse Yacob, "pelo tom que você fala, que você não se
incomoda com minha filha."
Foi Medina-saroté quem convenceu Núnez a enfrentar os cirurgiões cegos.
"Você não quer que eu", disse ele, "perca meu dom da visão?"
Ela sacudiu a cabeça.
"Meu mundo é a visão."
Ela baixou a cabeça.
"Há as coisas belas, as pequenas coisas belas — as flores, os liquens entre as
rochas, a leveza e a maciez numa pele, o céu longínquo com o passar das nuvens, os pores-do-sol e as estrelas. E tem você. Para ver apenas você já é bom ter a visão, para ver seu rosto doce, sereno, seus lábios bondosos, suas queridas e belas mãos entrecruzadas... São esses olhos meus que você conquistou, esses olhos que me mantêm ligado a você, são esses olhos que esses idiotas querem tirar. Em vez disso, preciso tocar você, ouvir você, e não devo ver você nunca mais. Preciso ficar sob esse teto de rocha, pedra e escuridão, esse horrível teto sob o qual a sua imaginação definha... Não, você não me obrigaria a fazer isso?"
Uma dúvida desagradável tinha surgido dentro dele. Parou e deixou no ar a
pergunta.
"Eu desejo", disse ela, "às vezes —" Ela parou de falar.
"Sim", disse ele, um pouco apreensivo.
"Desejo às vezes — que você não fale assim."
'Assim, como?"
"Sei que é bonito — é a sua imaginação. Eu amo a sua imaginação, mas agora —"Ele esfriou. "Agora?", disse, com voz débil.
Ela sentou e ficou quieta e calada.
"Você quer dizer — você acha — que eu ficaria melhor, melhor talvez —"
Ele estava percebendo as coisas bastante rapidamente. Sentiu raiva, de verdade, raiva, diante do duro curso do destino, mas também simpatia pela falta de compreensão dela — uma simpatia próxima da piedade.
"Querida", disse, e ele podia agora ver, pela palidez dela, quão intensamente o
espírito dela pressionava contra as coisas que ela não podia dizer. Ele a rodeou com os braços, beijou-lhe a orelha, e eles permaneceram sentados um tempo em silêncio.
"E se eu consentisse nisso?", disse ele afinal, numa voz muito suave.
Ela o apertou em seus braços, chorando muito. "Oh, se você consentisse", soluçou, "se você apenas consentisse!"
Durante a semana anterior à operação que deveria erguê-lo da servidão e da
inferioridade para o nível de um cidadão cego, Núñez não dormiu nem um pouco, e durante todas as horas quentes de sol, enquanto os demais ressonavam felizes, ele ficava sentado meditando ou andava sem rumo, tentando levar sua mente a suportar o dilema. Tinha dado a resposta, tinha dado o consentimento, e ainda assim não tinha certeza. E no fim, o horário de trabalho tinha acabado, o sol nasceu em esplendor por sobre as cristas douradas, e o último dia de visão começou para ele.
Teve uns minutos com Medina-saroté antes que ela partisse para dormir.
“Amanhã", disse ele, "não verei mais."
"Oh, querido do meu coração!", ela respondeu, e apertou as mãos dele com toda a força.
"Machucarão você só um pouco", ela disse; "e você vai passar por essa dor — você vai passar por isso, querido amor, por mim... Querido, se o coração e a vida de uma mulher podem fazer isso, vou recompensar você. Queridíssimo, que-ridíssimo, você, com sua voz terna, vou recompensá-lo."
Ele ficou inundado de piedade por ele mesmo e por ela.
Segurou-a nos braços, e apertou os lábios contra os dela, e olhou o doce rosto dela pela última vez. "Adeus!", sussurrou diante dessa querida visão, "adeus!"
E então, em silêncio, ele a deixou.
Ela pôde ouvir os lentos passos dele à saída, e algo no ritmo dos passos a levou a um choro apaixonado.
Ele tinha decidido firmemente ir a um lugar solitário, onde a pradaria era bonita, com narcisos brancos, e ali ficar até que chegasse a hora de seu sacrifício, mas enquanto andava ergueu os olhos e viu a manhã, a manhã como um anjo em armadura dourada, descendo pelos picos...
Pareceu-lhe que, diante desse esplendor, ele, e esse mundo cego no vale, e seu amor, e tudo, não eram mais do que um poço de pecado. Não virou para o lado que tinha pretendido, mas seguiu em frente, e passou pelo muro circular e saiu para as rochas, e seus olhos estavam sempre vendo o gelo e a neve iluminados pelo sol.
Viu sua beleza infinita, e sua imaginação cresceu a partir do gelo e da neve para as coisas lá longe, às quais agora iria renunciar para sempre.
Pensou naquele mundo grande e livre de onde tinha partido, o mundo que era o seu próprio mundo, e teve uma visão das encostas além dali, da distância atrás da distância, com Bogotá, lugar de beleza de multidão vibrante, glória durante o dia, mistério luminoso à noite, lugar de palácios, fontes, estátuas e casas brancas, belas a meia distância. Pensou como, em um dia ou pouco mais, poderia descer, atravessando passos, chegando cada vez mais perto de suas ruas e ruelas movimentadas. Pensou na viagem pelo rio, dia após dia, da grande Bogotá para o mundo ainda mais vasto lá fora, por entre vilas e aldeias, floresta e lugares desertos, o rio correndo dia após dia, até que suas margens se afastavam e os grandes vapores surgiam brilhantes, e tinha chegado ao mar — o mar sem limites, com suas mil ilhas, seus milhares de ilhas, e seus navios vistos vagamente ao longo em suas incessantes jornadas em torno daquele mundo maior. E lá, não limitado pelas montanhas, se via o céu — o céu não como um disco como se via aqui, mas como um arco de azul imenso, uma profundeza das profundezas em que as estrelas em rotação estavam flutuando... Seus olhos examinaram a grande cortina de montanhas investigando-as ansiosamente.
Por exemplo, se alguém andasse assim, subindo aquele desfiladeiro e rumo àquela canaleta lá, então alguém poderia subir alto entre aqueles pinheiros-anões que corriam em volta numa espécie de proteção e se erguiam ainda mais alto quando a proteção passava acima da garganta. E então? Aquele talude poderia ser superado.
Então talvez pudesse ser achada uma via de escalada que o levasse ao alto do
precipício que vinha depois da neve, e se essa canaleta falhasse, então outra mais a leste poderia servir melhor. E então? Então estaria sobre a neve iluminada cor de âmbar ali, e estaria a meio caminho rumo à crista daqueles belos lugares desolados.
Ele olhou para trás, para a aldeia, e então se virou e a observou de modo
abrangente.
Pensou em Medina-saroté, e ela tinha se tornado pequena e remota.
Virou-se de novo para a parede da montanha, pela qual rumo abaixo o dia claro tinha chegado para ele.
Então, muito circunspeto, começou a escalar.
Quando chegou o pôr-do-sol, ele não estava mais escalando, mas estava longe e muito alto. Tinha estado mais acima, mas ainda estava num lugar muito alto. As roupas estavam rasgadas, os membros estavam manchados de sangue, estava machucado em muitos lugares, mas ele se sentia como se estivesse à vontade e havia um sorriso em seu rosto.
De seu lugar de repouso o vale parecia como se estivesse num poço e quase a uma milha de distância. Já estava difícil de enxergar, com a névoa e a sombra, embora os picos de montanhas em torno dele fossem objetos de luz e fogo. Os picos de montanhas em torno dele eram objetos de luz e fogo, e os pequenos detalhes das rochas próximas estavam inundados de beleza sutil — um veio de mineral verde furando o cinza, a luminosidade de cristais aqui e ali, um pequeno líquen laranja de delicada beleza bem perto de seu rosto. Havia sombras muito misteriosas na garganta, o azul se aprofundando para o púrpura, e o púrpura para uma escuridão luminosa, e lá em cima estava a ilimitada vastidão do céu. Mas ele não mais prestava atenção nessas coisas; ficou bastante quieto por ali, sorrindo como se estivesse satisfeito simplesmente por ter fugido do vale dos cegos, no qual tinha pensado ser rei. O brilho do pôr-do-sol passou, a noite chegou, e ele ainda estava quieto, deitado, em paz e contente sob as estrelas frias e claras.

sábado, 13 de dezembro de 2014

A SOMBRA de HANS CHRISTIAN ANDERSEN

Nos países quentes, o sol possui um outro ardor que o nosso não tem. As pessoas tornam-se acajus. Nas regiões mais quentes ainda, chegam a ser negras.
Mas foi justamente para um desses países cálidos que um sábio de nossos países frios resolveu ir. Imaginava que poderia circular por ali como em nossa pátria; mas logo se desiludiu.
Assim como todas as pessoas razoáveis, ele era forçado a ficar em casa, com as venezianas e as portas fechadas durante o dia inteiro. Dir-se-ia que todos dormiam na casa, ou que esta não era habitada. Além do mais, a rua onde ele morava ficava situada de tal maneira, que desde manhã o sol batia na casa toda. Era verdadeiramente insuportável.
A sombraEste sábio dos Países frios era um homem jovem e inteligente. Parecia-lhe estar sobre um fogo em brasa. Como sofria. Emagrecia ao extremo, mesmo sua sombra diminuía. Estava bem menor do que em sua pátria. Estava ficando assim por causa do sol. Só se animava à noite, quando o sol desaparecia. Então era um prazer vê-lo e à sua sombra.
Assim que ele levava a luz para o apartamento, a sombra se alongava na parede até o teto. Crescia e se estendia a fim de refazer ao forças. O sábio ia para a varanda e assim que as estrelas luziam no céu claro, ele era inundado de uma vida nova. Em todas as varandas rua – e nos países quen tes quase todas janelas possuem a sua varanda – as pessoas se mostravam. Pois é preciso tomar ar, mesmo quando se está acostumado a ser acaju. A vida se manifestava em todas as formas. Muitas pessoas andavam pelas ruas; levavam para fora as mesas e cadeiras; havia luzes por todos os lados.
Conversavam e cantavam; havia uma multidão de transeuntes e de carros. Cavalos e mulas passavam tilintando, pois possuíam campainhas.
Enterravam seus mortos em meio aos cânticos; as crianças faziam barulho; os sinos das igrejas tocavam. Havia vida e movimento nas ruas. Somente a casa que ficava em frente à do sábio estrangeiro permanecia silenciosa.
No entanto, ali devia habitar alguém; pois na varanda havia flores que aproveitavam esplendidamente o calor do sol, o que não seria possível se não fossem, regadas, o que queria dizer que alguém as regava.
Forçosamente morava alguém naquela casa. Além do mais, a porta se abria também à noite; mas o interior era sombrio, pelo menos no primeiro aposento, pois ouvia-se música vinda do fundo. Esta parecia ao sábio incomparavelmente bela.
Talvez fosse fruto da sua imaginação: ele acharia tudo maravilhoso nos países cálidos, se o sol não fosse tão forte. O senhorio do estrangeiro dizia não saber quem alugara a casa em frente: jamais se via alguém. Quanto à música, na sua opinião, era muito enfadonha; achava que uma criatura exercitava uma peça muito difícil para ela, e, já que não conseguia tocá-la satisfatoriamente, tornava a recomeçá-la.
- Acabará conseguindo, não há dúvida.
Mas por mais que tocasse, não o conseguia. Certa noite o estrangeiro acordou. Ele dormia perto da porta aberta da varanda, da qual pendia uma cortina que balançava ao vento. Pareceu-lhe que da varanda em frente vinha uma luz extraordinária. No meio das flores que brilhavam com as cores mais magníficas, encontrava-se uma jovem amável e bonita. Parecia até que ela também brilhava. Ele ficou completamente cego; lá não havia nada de extraordinário; ele abrira demais os olhos e acabava de sair do sono. De um salto, ele abriu a cortina. Mas a moça desaparecera e, com ela, toda a luminosidade.
As flores não – brilhavam mais e só tinham a sua beleza costumeira.
A porta estava encostada. E do fundo do apartamento vinha uma música agradável, suave, própria para despertar os mais doces pensamentos. Era um verdadeiro encantamento. Quem moraria ali? E onde ficava a entrada? No rés-do-chão as boutiques se seguiam e era impossível passar por ali constantemente. Certa noite, o estrangeiro estava também na sua varanda. Atrás dele, em seu quarto, a luz estava acesa. E assim, era natural que sua sombra se desenhasse
na parede em frente. Sim, ela estava lá, na varanda, no meio das flores, e de cada vez que o estrangeiro fazia um movimento, a sombra fazia outro correspondente.
- Creio que minha sombra é tudo o que possa existir de vivo lá dentro – disse o sábio. – Como é ela graciosa assim no meio das flores! A porta não está senão encostada. Ela poderia ser bem sabida para entrar, examinar o que há no  interior, e, ao voltar, contar-me o que viu. Sim, sim – disse ele brincando. – Você bem podia prestar-me esse serviço. Faça o favor de entrar. Vamos, você não quer ir? Debruçou-se sobre a sua sombra que lhe respondeu:
- Vá! mas não fique muito tempo.
0 estrangeiro levantou-se. Na sua frente, na varanda, sua sombra levantou-se também. Ele virou-se e a sombra fez o mesmo. E se alguém prestasse atenção, veria a sombra passar pela porta entreaberta da varanda da frente, justamente no momento em que o estrangeiro penetrava em seu quarto, deixando cair a cortina atrás dele.
Na manhã seguinte, o sábio saiu a fim de tomar café e comprar os jornais.
- Que é isso? – gritou ele assim que ficou sob o sol.
- Eis que eu não tenho mais sombra! Então ela partiu ontem à noite e não mais voltou. Isso é muito estranho!
Não era tanto a perda da sombra que lhe trazia tanto mau humor. Mas na terra dele, nos países frios, todos conheciam a história do homem que perdera a sombra. Atualmente, se ele voltasse ao seu país e contasse sua aventura, iriam  chamá-lo de plagiário. E isso o contrariava. Eis por que resolveu não dizer nada, o que era muito sensato.
A noite ele voltou à sua varanda; colocara a luz bem atrás de si, sabendo que a sombra exige que seu dono esteja entre ela e a luz. Mas não conseguiu fazê-la voltar. Abaixou-se e levantou-se. Não possuía mais sombra, não apareceu nenhuma.
- Hum! hum! – fez ele. O que não adiantou de nada.
Era verdadeiramente enfadonho. Felizmente tudo passa depressa; no fim de oito dias, ele se deu conta, para grande alegria, que, assim que chegava ao sol, uma nova sombra começava a estender-se aos seus pés. Três semanas mais tarde, ele já possuía uma sombra bem razoável.
E quando voltou para o seu pais, em direção ao Norte, ela crescia à medida que ele viajava, crescendo tanto,
que dentro em breve alcançou a metade do seu tamanho. O sábio voltou para casa e escreveu sobre o belo, a verdade e o bem no mundo. Passaram-se anos. Um longo tempo se passou.
Uma noite em que estava sentado em seu apartamento, bateram ligeiramente na porta.
- Entre – disse ele.
Mas não entrou ninguém. Então ele mesmo foi abrir.
Na sua frente estava um ente magro ao extremo, que lhe causou uma estranha impressão, mas que, ao examiná-lo, o sábio viu que estava elegantemente vestido. Devia ser alguma pessoa de bem.
- A quem tenho a honra de falar? perguntou o sábio.
- Ah! bem que eu duvidava que você não me reconheceria – disse o homem elegante. – Tornei-me muito material.
Ganhei carne e ossos. E, sem dúvida não pensava em me ver em tão bom estado. Não reconhece a sua velha sombra? Certamente não esperava que eu voltasse. Tive uma sorte extraordinária, depois que o deixei. Consegui meios sob todos os pontos-de-vista. E tive a possibilidade de me livrar da minha servidão. Ao mesmo tempo fez soar uma quantidade de berloques preciosos que pendiam de seu relógio e passou a mão por uma corrente de ouro maciço que trazia ao pescoço. Em todos os seus dedos diamantes lançavam chispas. E nenhuma dessas jóias era falsa.
- Não, não posso acreditar! – disse o sábio. – Como é
possível?
- Não é muito comum, realmente disse a sombra.
- Mas você também não é uma pessoa comum, e eu, sabe-o muito bem, segui-o desde a infância. Assim que me julgou bastante amadurecido para deixar-me só no mundo, segui a minha própria vida. Encontro- me numa situação das mais brilhantes. Mas uma espécie de nostalgia tomou conta de mim e a vontade de vê-lo mais uma vez antes da sua morte, pois você – é claro – vai morrer um dia. Além do mais, queria rever este país; sempre se ama a própria pátria. Sei
que arranjou uma outra sombra. Tenho algo a pagar-lhe, ou a ela? Peço-lhe o favor de dizer-me.
- Não! Então é você mesmo! – disse o sábio. – É maravilhoso. Nunca pensei que poderia ver novamente a minha velha sombra sob uma forma humana.
- Diga-me o quanto tenho de pagar disse a sombra. – Não gosto de ter dívidas.
- Como pode falar dessa maneira – disse o sábio.
- Não se trata de dívida. Use a sua liberdade como todo mundo faz. Estou muito contente com a sua felicidade. Sente-se, meu velho amigo. e conte-me tudo o que lhe aconteceu e o que você viu nos países quentes na casa do meu vizinho da frente.
- Contarei tudo – disse a sombra sentando-se – mas prometa-me em troca que não dirá a ninguém aqui, nesta cidade onde terá várias ocasiões de encontrar-m
e, que eu fui sua sombra. Estou pretendendo ficar noivo. Possuo o suficiente para manter uma família.
- Pode ficar tranqüilo – disse o sábio. – Não contarei a ninguém quem você é na realidade. Prometo. Um verdadeiro homem só tem uma palavra.
- Um verdadeiro homem só tem uma palavra – repetiu a sombra que era obrigada a se exprimir assim.
Era realmente espantoso constatar como ele se tornara um homem perfeito. Seu traje negro era do tecido mais fino; usava botinas de verniz e um chapéu?claque? elegante, sem falar nos berloques que já conhecemos, da corrente de ouro e dos anéis. Sim, a sombra estava impecavelmente trajada e é justamente isso que faz um homem.
- Voou contar-lhe – disse a sombra pousando o mais forte que pôde o pé calçado de verniz sobre a nova sombra do sábio, que jazia à sua frente como um travesseiro, fosse por orgulho ou por querer descansar.
A nova sombra, porém, quedou-se tranqüila: sem dúvida queria saber também como poderia livrar-se de seu amo.
- Sabe quem morava na casa nossa vizinha? – perguntou a sombra.
- O que há de mais belo; a poesia.
Fiquei lá três semanas, as quais aproveitei como se tivesse vivido três mil anos, lendo todos os poemas e todas as obras dos sábios. Estou dizendo a verdade.
Li tudo e aprendi tudo.
- A poesia! – exclamou o sábio.
- Sim, sim, ela vive solitária nas grandes cidades. A poesia vi-a um breve instante, mas dormia ainda. Ela estava na varanda, entrou pela porta e depois …
- Depois eu fui até a antecâmara prosseguiu a sombra. – Não havia luz; reinava uma espécie de penumbra. Os aposentos numerosos estavam dispostos em fila e pelas portas abertas podia-se vê-los com um só olhar. Estavam tão claros como em pleno dia e a violência desse mar de luz certamente me teria matado, se eu me aproximasse da jovem. Mas fui prudente e soube o que fazer.
- Que viu a seguir? – perguntou o sábio.
- Eu tudo vi. Vi tudo e sei de tudo!
- Como eram os aposentos lá dentro? interrogou o sábio.
- Eram como na fresca floresta? Como uma santa igreja? As salas eram como um céu de estrelas, como quando se está nas altas montanhas?
- Tudo estava lá – disse a sombra. Não entrei totalmente; permaneci na primeira peça, na penumbra, mas encontrava-me perfeitamente bem. Sei tudo e vi tudo. Eu estava na corte da poesia, na sua antecâmara.
- Mas que foi que viu? Os deuses da antigüidade estavam nas grandes salas? Os antigos heróis e os combatentes? Crianças amáveis brincavam e narravam seus sonhos?
- Vou contar-lhe e você vai compreender o que eu vi e o que havia para ver. Passando pelo outro lado, pas-
saria pelos limites da humanidade. Eduquei-me, aprendi a conhecer a minha própria natureza e minhas relações com a poesia. Outorga, quando estava ao seu lado, eu não raciocinava. Desde que o sol nascia e se punha, eu me tornava bastante grande.
Ao luar eu ficava do seu tamanho. Naquele tempo eu não conhecia a minha própria natureza; só percebi a sua essência na antecâmara da poesia: tornei-me um homem. Somente, como ser humano, envergonhava-me de sair como estava: faltavam-me roupas, sapatos, todo o verniz que dá significação à humanidade.
Procurei um abrigo, e – posso confessar-lhe, pois que você não vai dizer a ninguém – encontrei-o nas vestes de uma cozinheira. A honesta mulher nunca soube da proteção que me deu. Parti naquela mesma noite. E corri para cá e para lá, na rua, sob o luar. Encostava-me nas paredes. Corri da direita para a esquerda, olhei pelas mais altas janelas dos apartamentos e sobre os tetos. Lancei um olhar até onde ninguém pode fazê-lo e onde ninguém me poderia ver. Afinal, o mundo é mau.
Não gostaria de ser homem, se não fosse admitido comumente que ser homem significa algo. Eu vi, em casa de homens e mulheres, nas casas de pais de crianças doces e angélicas, as coisas mais incríveis.
Eu vi, disse a sombra, o que ninguém deveria saber, mas que todo mundo precisava conhecer, a maldade de seus vizinhos.
O que eu teria de leitores se possuísse um jornal! Mas eu escrevi da mesma forma às pessoas interessadas.
O terror tomou conta de toda as cidades onde eu chegava. Como me temiam, comportavam-se corretamente para comigo. Os professores me elevaram à sua condição, os alfaiates deram-me roupas novas, de maneira que pude andar bem vestido.
Deram-me também dinheiro e as mulheres diziam que eu era lindo. Foi assim que me transformei no que sou hoje. Agora vou dizer-lhe adeus. Aqui está o meu cartão. Moro do lado do sol, e, quando chove, fico sempre em casa.
Depois disso, a sombra se foi.
- Eis uma coisa notável – disse o sábio.
Passaram-se alguns anos e a sombra voltou inopinadamente.
- Como vão as coisas?
- Ora! – respondeu o sábio – escrevi sobre a bondade, a verdade e a beleza; mas para isso só existe gente surda. Estou desesperado, pois isso me entristece muito.
- Nunca me entristeço – respondeu a sombra.
- E? por isso que engordo, o que deve ser a finalidade de todo indivíduo razoável. Você continua a não entender o mundo. Acabará ficando doente. E? preciso viajar. Vou fazer uma viagem neste verão. Quer me acompanhar?
Eu gostaria muito de tê-lo comigo. Pagarei a viagem.
- Você vai muito longe? – inquiriu o sábio.
- Isso depende – disse a sombra.
Uma viagem vai restabelecer-lhe as forças. Se vier como minha sombra, farei todos os gastos.
- E? uma loucura – disse o sábio.
- Assim é o mundo – disse a sombra. E assim ficará. A sombra partiu sem dizer mais nada.
O sábio não ia bem. Estava cheio de ansiedade e aborrecimento. O que ele dizia sobre a verdade, a beleza e o bem, era, para a maioria, o que são as pérolas para os porcos. Finalmente caiu verdadeiramente doente.
- Você tem mesmo o ar de uma sombra – diziam-lhe osoutros.
E, a esse pensamento, o sábio tremia.
- Você precisa mesmo viajar – disse a sombra quando foi visitá-lo.
- Não há outro meio. Nós somos velhos conhecidos, eu o levo. Pagarei a viagem. Você poderá escrever mais tarde sobre a mesma e, ao mesmo tempo, ajudar-me-á a não me aborrecer. Quero ir para uma estação de águas: minha barba não cresce como deve. Também é uma doença, pois todos devem ter barba. Seja condescendente, aceite a minha proposta; viajaremos juntos.
Partiram. Agora a sombra era o mestre e o mestre transformara-se em sombra. Viajaram juntos, de carro ou a cavalo, lado a lado, ou um atrás do outro, de acordo com a posição do sol. A sombra ficava sempre ao lado do seu mestre, sem que o sábio dissesse nada. Tinha muito bom coração, era doce e amável.
Eis por que ele disse um dia à sombra:
- Já que agora nós somos companheiros de viagem, e que, além do mais, estamos; ligados desde a infância, não poderíamos beber à nossa fraternidade? Nossa amizade ficará ainda mais sólida.
- Você acaba de dar a sua opinião – disse a sombra, que agora era o mestre. – Falou com a liberdade do coração e eu farei o mesmo, já que é sábio, deve saber o quanto a natureza é caprichosa. Muitas pessoas não podem ouvir barulho de papel, outras ficam nervosas quando se arranha um vidro com um alfinete. Eu ficava assim quando era obrigado a tratá-lo como senhor. Veja que não se trata de orgulho, mas de sensação. Mas já que você não se incomoda, faço questão que, de agora em diante, me trate como senhor.
E assim, o antigo mestre passou a ser tratado como servo. E o sábio, quisesse ou não, tudo suportava.
No entanto, os dois chegaram à estação de águas. Muitos estrangeiros descansavam no local, e, entre eles, havia a graciosa filha de um rei, cuja doença consistia em ter uma vista muito aguda, o que não deixa de ser uma coisa séria.
E assim ela logo percebeu que o recém-chegado não era uma pessoa igual aos outros mortais.
Ele está aqui para fazer crescer a barba, é o que dizem; mas eu vejo bem qual o verdadeiro motivo: ele não tem sombra.
>Teve um grande desejo de conhecê-lo; assim que pôde iniciou conversa com o estrangeiro, durante um passeio.
Sendo a filha de um rei, ela não precisava usar de muitas cerimônias.
- Sua doença – disse ela – consiste em que o senhor não pode projetar uma sombra.
- Vossa Alteza Real – replicou a sombra – está melhorando muito. O mal de que sofria, de ter a vista muito
aguda, desapareceu. Está curada: eu possuo, pelo contrário, uma sombra extraordinária. Não vê a pessoa que não deixa de me acompanhar? Os outros possuem uma sombra comum, mas eu não gosto do que é comum. Da mesma forma que alguns fazem seus servos se vestirem melhor do que eles mesmos, eu transformei a minha sombra em homem. Como pode ver, eu cheguei a dar-lhe até uma sombra própria.
Sem dúvida é uma fantasia dispendiosa, mas gosto de ter algo para mim só.
Como?, pensou a princesa. Estarei verdadeiramente curada? Esta estação de águas é certamente a mais proveitosa para o meu estado. A água deve ter virtudes milagrosas. Mas, de qualquer forma, não vou partir daqui, pois isto começa a ficar interessante. Gosto muito deste estrangeiro. Contanto que a sua barba não cresça! Senão ele iria embora imediatamente.
A noite, na grande sala de baile, a filha do rei dançou com a sombra. Por mais leve que ela fosse, ele o era ainda mais. jamais ela vira um tal bailarino. Contou-lhe de onde vinha. E ele conhecia seu país; lá estivera, mas ela não se encontrava em casa. Ele olhara por todas as janelas, altas e baixas e observara tudo.
Pôde assim responder à filha do rei e dar-lhe indicações que a deixaram estupefata. Devia ser o homem mais sábio do mundo. Levou a sua sabedoria em grande consideração. E quando dançaram uma segunda vez juntos, ela apaixonou-se perdidamente por ele, o que a sombra percebeu muito bem. Ao dançar novamente, ela esteve a ponto de confessar seu amor. Mas pensou um pouco em seu país, seu reino e em tudo aquilo que teria de governar um dia. Trata-se de um homem sábio, dizia ela para si mesma. Dança maravilhosa-mente bem. Mas o importante é saber se possui também conhecimentos fundamentais. Vou fazer-lhe um exame. Então ela começou a fazer-lhe as perguntas mais difíceis. Ela mesma não seria capaz de respondê-las. A sombra fez um gesto singular.
- O senhor não poderá responder dizia a filha do rei.
- Mas eu sei o que me pergunta desde os tempos da escola – respondeu a sombra. Chego até a pensar que minha sombra, que está encostada na porta, poderá responder.
- Sua sombra! – replicou a filha do rei. – Eis uma coisa que seria admirável!
- Não afirmo que ela o faça – continuou a sombra – mas acredito que sim. Há tantos anos que me acompanha e me ouve. Mas Vossa Alteza Real me permite dizer-lhe que ela tem o orgulho de passar por um homem e que, se estiver de bom humor – e ela deve estar para poder responder convenientemente – é preciso tratá-la como tal.
- Gosto de um tal orgulho – disse a filha do rei. Foi reunir-se ao sábio, na porta, e falou-lhe sobre o sol e a lua, sobre o homem exterior e interior. E ele respondeu bem e inteligentemente.
Como deve ser o homem que tem uma sombra tão sábia!, pensava ela. Será uma verdadeira bênção
para meu povo e para o Estado se eu o tomar para marido. Vou fazê-lo.
E suspirou.
- Você tem um caráter nobre – disse a filha do rei.
À noite, toda a cidade foi iluminada. O canhão troou e a filha do rei e a sombra acertaram tudo. Todavia, ninguém devia saber de seus planos antes que ela entrasse em seu reino.
- Ninguém, nem mesmo a minha sombra – disse a sombra. Estava pensando em algo.
Logo eles se encontraram no país da filha do rei.
- Ouça, meu bom amigo – disse a sombra ao sábio:
- Atualmente eu me tornei mais feliz e poderoso do que qualquer outra pessoa no mundo; e vou fazer por você algo de excepcional. Morará constantemente comigo no castelo, viajará em minha carruagem real e terá um grande ordenado anual. Somente é preciso que não diga a ninguém que é um homem; e, uma vez por ano, quando eu estiver sentado ao sol para que todos me vejam, você se deitará aos meus pés, como convém a uma verdadeira sombra. Confio-lhe que vou me casar com a filha do rei; o casamento será celebrado esta noite.
- Não, isso é uma loucura! – disse o sábio. – Não quero e não o farei. Seria enganar o país inteiro, e, sobretudo, a filha do rei. Vou contar tudo: que o homem sou eu e que você é somente uma sombra que veste roupas de homem.
- Ninguém vai acreditar – disse a sombra.
- Tenha juízo, senão chamarei os guardas!
- Vou procurar a filha do rei – disse o sábio partindo.
- Também vou – gritou a sombra. E você irá para a
prisão.
Foi o que aconteceu, pois os guardas lhe obedeceram, sabendo que a filha do rei o escolhera para marido.
- Está tremendo? – perguntou a filha do rei à sombra
que chegava.
- Aconteceu alguma coisa? Não deve ficar doente justamente na noite de nossas núpcias.
- Aconteceu-me a coisa mais espantosa que se poderia conceber – disse a sombra. – Imagine só – é verdade que um
pobre cérebro de uma sombra não pode ser muito sólido – imagine: minha sombra enlouqueceu. Ela acha
que sou eu e que eu sou a sua sombra!
- E? incrível! – disse a princesa. – Prenderam-na?
- Sim, mas tenho medo de que nunca mais recupere a
razão.
- Pobre sombra! – replicou a princesa. – Deve ser muito infeliz. Seria uma boa ação, realmente, dispensá-la da sua
vida de sombra. Quanto mais penso, mais me parece de bom alvitre desembaraçarmo-nos dela sem escândalo.
- É realmente penoso – disse a sombra. – Sempre foi um leal servidor.
Os soldados apresentaram armas. Era a noite do casamento. A filha do rei e a sombra apareceram no balcão para que fossem vistos e saudados mais uma vez pela multidão.
O sábio ficou ignorando toda essa solenidade: haviam-lhe tirado a vida.

sábado, 1 de novembro de 2014

NARCISO

O mito grego de Narciso começa quando uma mulher dá a luz ao menino que recebe esse nome e é lindíssimo. A mãe fica preocupada com a beleza sobre-humana do filho. Tal extremo poderia causar o pecado da arrogância - que é o de se achar acima de sua condição - e provocar o castigo dos deuses. Aconselhada por um Oráculo, então, a mãe de Narciso retira todos os espelhos da casa e protege o filho de ver a si mesmo. Assim ele cresce, ignorando sua imagem e a paixão da ninfa Eco. Um dia, quando ele se perde na floresta e começa a gritar por ajuda, ouve suas palavras repetidas por Eco, que fora condenada a reproduzir apenas as últimas sílabas pronunciadas por alguém. Narciso imagina que a voz é de um amigo e a segue. Quando vê Eco, a despreza e continua a caminhar até encontrar um lago para tomar água. É ali que se apaixona pelo próprio reflexo. A paixão torna-se prisão porque o jovem não consegue parar de se amar nem suporta se afastar do lago, que contém sua imagem. Ele morre de inanição e os deuses o transformam numa linda flor.
Segundo o analista junguiano Rodney Taboada, o mito grego de Narciso aborda tanto a questão da auto-estima quanto a do narcisismo. "Sem conhecer a si mesmo não há auto-estima, e Narciso não pode amar o outro, mas apenas a si próprio", conclui.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

ECOVILAS, UM NOVO JEITO DE MORAR por Carlos Solano

Eu vi e vivi o futuro da Terra! Deslumbramento, plenitude, gratidão... Não é fácil descrever meus sentimentos em Findhorn, uma comunidade ecológica - ou ecovila - situada entre os castelos e bosques da belíssima Escócia, onde passei quase um ano de minha vida. Findhorn é uma miniatura do mundo, ou melhor, do que o mundo será um dia. Do que será, sim, agora tenho certeza. Ali, pessoas de todos os continentes, credos e idades, pacífica e intensamente, abrem novas possibilidades de ser e de conviver. As idéias práticas e positivas dessa ecovila pioneira (www.findhorn.org) encontraram um campo fértil. Hoje, uma rede mundial de ecovilas, a GEN - Global Ecovillage Network (http://gen.ecovilage.org), demonstra que uma cultura de paz e abundância já é possível em algumas partes do mundo.
Trabalhando na cozinha, na horta ou até na construção, descobri em Findhorn que são os pequenos gestos do dia-a-dia que podem mudar o mundo: comprar um produto que seja a favor do meio ambiente (como objetos de metal e vidro reciclados), substituir a madeira pelo bambu, para evitar o corte das matas (www. bambubrasileiro.com), preferir tintas de baixa toxidade, que usam água como solvente, em vez de produtos químicos (há opções da Renner e da Sayerlack), escolher eletrodomésticos com o selo Procel, que indica o baixo consumo de energia.

MATERIAIS REAPROVEITADOS
Em Findhorn, após o trabalho, voltávamos para casa atravessando bosques de árvores imensas. Era difícil imaginar que tudo aquilo, um dia, foi um deserto gelado. Mas era maravilhoso constatar que toda aquela paisagem se transformou pelas mãos do homem. E que a cidade e a natureza podiam conviver pacificamente. Não me esqueço do aconchego e da beleza das casinhas redondas, reaproveitamento de tonéis de uísque descartados. Ou da poesia que irradiava dos telhados gramados, eficientes na conservação da temperatura interna, num local em que o inverno chega a 25º C negativos!
Sobre tudo isso, existem livros, cursos e exemplos inspiradores aqui no Brasil. O Ipec - Instituto de Permacultura (www.permacultura.org.br) possui publicação sobre o permacultura, palavra que significa planejamento de comunidades humanas sustentáveis, e oferecerá o curso Bioconstruindo, de 6 a 13 de julho, em Goiás. Os livros Pachama e Missão Terra (Ed. Melhoramentos) contêm propostas de jovens e crianças de todo o mundo para salvar o planeta. O Centro de Ecologia Integral estimula a cultura da paz (www.ecologiaintegral.cjb.net).
Não ignorar o caos planetário,  mas ser uma resposta a ele foi outra das lições de vida naquele lugar. Entendi quea criação de um mundo novo depende de todos nós, que cada um pode dar sua resposta à poluição e ao desperdício. Por exemplo, se você separar as caixinhas usadas de leite para a coleta seletiva do lixo, elas poderão ser reaproveitadas, transformando-se em placas bonitas e resistentes, em forma de telhaou divisória. Com imaginação, a placa vira biombo, mesa. Uma empresa que comercializa essa placa é a Reciplac (www.reciplac.com.br).
Já existem esgotos ajardinados. A Rhizotec Tecnologia Ambiental oferece um sistema que utiliza um belo jardim aquático para tratamento do esgoto, que se transforma em água limpa e não polui os rios. Existe também um sistema para a captação e o tratamento da água da chuva (www.rhizotec.com.br). O Idhea - Instituto da Habitação Ecológica oferece, para a construção, telhas de sobras de madeira (taubilha), blocos de areia descartada de fundições, para paredes (recibloco), chapa de tubos de pasta de dente reciclados para forros (www.idhea.com.br). Tudo muito resistente.
Como você deve ter percebido, uma ecovila não é apenas um lugar físico, é um estado de consciência, que podemos levar conosco para onde formos. Um dos lemas de Findhorn é que "o trabalho é o amor em ação". O amor pelo ambiente, por todas as manifestações da vida e pelas futuras gerações combina com pessoas plenas e mais felizes.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

AZUL ÍNDIGO

O índigo, ou anil, não é uma cor pura, mas a mistura do azul com a violeta (que, por sua vez, resulta da soma de azul e vermelho). "As cores dessa gama sempre simbolizaram poder, nobreza e autoridade".
Segundo as filosofias orientais, o índigo está relacionado ao sexto chacra, um dos sete centros energéticos espalhados pelo corpo. Chamado de frontal, ou terceiro olho, ele fica na testa, entre as sobrancelhas, e rege a intuição e a imaginação.
Em cromoterapia esse tom de azul tem efeito calmante e anestésico. Alivia dores de cabeça e ouvido, sinusite, reumatismo e nevralgia.
O índigo foi popularizado no final do século 19, quando surgiu o jeans, usado pelos mineradores de ouro na Califórnia. A calça feita de denim era tingida com o corante obtido da planta Indigofera anil, ou índigo, conhecida havia vários séculos pelos indianos e pelos nativos das Américas. Esse corante não era obtido diretamente da planta, mas por meio de um processo de fermentação. O resultado era o anil, que nossas avós usavam para branquear a roupa. Hoje, a indústria substituiu esse corante natural por equivalentes sintéticos.
Na moda, o índigo é eterno. Desde que o jeans surgiu, nunca mais foi esquecido. Em certos momentos o índigo invade as passarelas e toma conta das tendências de moda. Os grandes criadores desenvolvem coleções inteiras em jeans. Nessas horas, o mundo fica mais azul.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

KAERÓS

Na mitologia há um deus chamado Kaerós (não tão conhecido como Apolo e Vênus, deuses da beleza, ou Cronos, deus do tempo). É o deus do instante. Aquele que passa rápido, imperceptíve e deixa uma marca, uma lembrança, uma imagem, um som, um perfume ou uma sensação que ficarão marcados para o resto de sua existência. A figura de Kaerós é bem interessante. Ele é todo liso, sem nenhum cabelo, muito escorregadio, difícil de segurar. 

sábado, 18 de outubro de 2014

Origem do termo "Calcanhar de Aquiles"

A expressão foi criada para designar o ponto fraco de alguém. Segundo a lenda grega, Aquiles, filho do rei Peleu e da deusa Tétis, tornou-se invulnerável quando, ao nascer, foi banhado pela mãe nas águas do rio Estige. Apenas o calcanhar por onde Tétis o segurou não foi molhado e continuou vulnerável. "Algumas variantes dizem que Aquiles foi flechado no calcanhar por Páris, que conhecia seu segredo. Mas não há citações em Homero sobre a morte do herói", diz o mitólogo Henrique Murachco, da Universidade de São Paulo.
Outra versão considera o calcanhar de Aquiles como uma virtude. Segundo ela,Tétis tentava erradamente, livrar os filhos da condição de mortal jogando-os no fogo. Peleu salvou Aquiles das chamas queimado e sem o osso do calcanhar e incumbiu Quíron, centauro conhecedor da medicina, de colocar no filho o osso de Dâmiso, um gigante veloz. Aquiles, adquiriu a velocidade que lhe deu fama.
 

domingo, 12 de outubro de 2014

APRENDA A ARRUMAR O GUARDA ROUPA

  • Mude as roupas de gavetas e compartimentos conforme as estações do ano.
  • Reserve uma gaveta para roupa de banho e ginástica.
  • Pendure os acessórios (lenços, cintos, etc) nos cabides das peças que costuma usar com eles.
  • Pendure as calças e saias pela cintura para evitar que amassem.
  • Guarde brincos, anéis, colares, abotoaduras e pulseiras em caixinhas diferentes.
  • Disponha as roupas nessa ordem, começando da esquerda: vestidos, casacos, saias, calças, camisetas de manga longa e de manga curta. Ao pendurá-las assim, com as mais compridas juntas, você ganha espaço. Em seguida, mantendo a ordem acima, organize as peças por cores, das escuras para as claras.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Apropriado para a época de eleições - Poema SÓ DE SACANAGEM



Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais.
Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração tá no escuro.
A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam:
" - Não roubarás!"
" - Devolva o lápis do coleguinha!"
" - Esse apontador não é seu, minha filha!"
Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até habeas-corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar, e sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.
Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda eu vou ficar. Só de sacanagem!
Dirão:
" - Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba."
E eu vou dizer:
"- Não importa! Será esse o meu carnaval. Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos. Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."
Dirão:
" - É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal".
E eu direi:
" - Não admito! Minha esperança é imortal!"
E eu repito, ouviram?
IMORTAL!!!
Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final.

OYÁ E OS ESCOLHIDOS

Os sonhos se repetiam cada vez mais vívidos e a menina Luz começava a desconfiar que algo estranho estava acontecendo em sua vida pois a ...