terça-feira, 5 de novembro de 2013

Como ganhar um prêmio

Para vencer editais e usar lei de incentivo, o negócio é colocar projetos eproduções artísticas na fôrma dos critérios para financiamento à cultura via empresas especializadas
GUILHERME GENESTRETIDE SÃO PAULONos últimos três anos, o coletivo Garapa, que faz trabalhos fotográficos e multimídia, lançou dois livros, ministrou cinco oficinas pelo Brasil e realizou três exposições --a última, sobre o rio Tietê, foi encerrada em agosto no Centro Cultural São Paulo.
Em comum, todos os projetos conseguiram financiamento após serem formatados por uma mesma produtora cultural, especializada em enquadrar ações artísticas nos moldes das leis de incentivo e dos editais de patrocínio.
"A gente tem ideias o tempo inteiro, mas não estamos acostumados a transformá-las em projetos com justificativa e objetivos", diz Paulo Fehlauer, 31, do Garapa.
É nesse nicho que há três anos atua a Frida, produtora paulistana que trabalha especialmente com fotógrafos como os membros do Garapa.
"Muitos estão descobrindo editais e leis de incentivo, mas não têm ideia de como inscrever trabalhos", diz Ana Silvia Forgiarini, 43, sócia da Frida. "Ou usam uma linguagem muito acadêmica ou muito artística", diz a outra sócia, Mariane Goldberg, 31.
Além de inscrever os projetos, a empresa também sugere os editais mais adequados a cada um e eventualmente gerencia os que são aprovados.
A produtora modela ações de artistas em duas frentes: leis de incentivo e editais. Cobra cerca de R$ 3.000 para formatar projetos para a primeira modalidade, e metade disso para a segunda.
CONTRAPARTIDAS
"Para os artistas, é sempre um bicho de sete cabeças", conta Marina Gonzalez, 53, dona da Comg, empresa que presta esse tipo de serviço há 15 anos. Ela estima em cerca de 20 os projetos que elabora para as duas formas de financiamento por ano.
"O segredo é que precisam ser objetivos. Há sempre um júri que vai ler o que foi inscrito e que vai se cansar com projetos muito longos", diz Roberta Martinho, 39, da Oiya Projetos Culturais. Ela afirma sair vencedora em um terço dos cerca de 30 editais aos quais concorre por ano.
Sua atuação é diferente: é ela quem procura artistas com os quais gostaria de trabalhar, formata os projetos e depois trabalha na produção, caso saiam vencedores.
O desenhista Alex Cerveny, 49, foi um de seus recentes parceiros. Suas ilustrações para o livro "As Aventuras de Pinóquio" (ed. Cosac Naify) ganharam o prêmio de R$ 150 mil do edital Marcantonio Vilaça, da Funarte (Fundação Nacional de Artes), para serem expostas no Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande. A produtora ficou com pouco mais de 10% do valor.
"A concepção foi minha, mas a Roberta sabia o que tornaria a proposta mais competitiva", diz o artista. No caso, uma oficina de colagem dada por Cerveny a alunos locais.
O Ministério da Cultura e a Secretaria Estadual da Cultura não têm números sobre projetos formatados por agências.
SAPOS E GARIMPEIROS
"O intermediário nem sempre é bom", diz o cineasta e fotógrafo Jorge Bodanzky. "Mas é tanta complexidade que o artista não consegue concorrer sem um produtor."
"Recorrer a isso é válido, o problema são as leis de incentivo. A coisa é tão burocrática que no final não importa o projeto, mas quem preencheu os requisitos."
No caso dos editais, "injustiças eventualmente podem ocorrer", segundo o advogado Evaristo Martins de Azevedo, presidente da Comissão de Direito às Artes da OAB.
"É tanto projeto para avaliar em pouco tempo que juízes escolhem os que melhor atendem o regulamento."
As produtoras dizem que não interferem na concepção das obras. "Pode rolar uma conceituação em conjunto com o artista, mas a gente não muda o tema de ninguém", diz Goldberg, da Frida.
Algumas adaptações, contudo, chegam a acontecer.
Para concorrer a um edital de documentação do Brasil, a produtora sugeriu que um fotógrafo, especializado em retratos de garimpeiros, ampliasse o foco.
"Falei que eu achava pouco só garimpeiros", diz Ana Silvia. "Então ele mesmo sugeriu fazer retratos de homens que trabalham com a terra em geral. Vai incluir agricultores se ganhar o edital."
Marina Gonzalez, da Comg, também sugeriu algo parecido a um biólogo que queria escrever sobre sapos. "Falei que tinha que ter vertente cultural. Ele então vai falar também sobre a simbologia do sapo no folclore e na história."
Um fotógrafo que não quis se identificar diz que também recebeu orientação de produtora para mudar seu projeto original. "Falaram que um site daria mais certo do que um livro, não só porque o orçamento seria menor, mas porque ajudaria a convencer os juízes do edital", conta.

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