terça-feira, 26 de junho de 2012

TRABALHAR, TRABALHAR por Gustavo Ranieri

Pode ser que em alguns momentos - talvez muitos - você ache que vem trabalhando bem mais do que deveria. Passa horas sonhando em curtir mais a vida pessoal e, quando menos espera, lá está o diabinho sussurrando no ouvido que descansar demais é o caminho para rotina ociosa. É exatamente sobre a busca por esse equilíbrio que vários filósofos se debruçaram. Na Roma antiga, como lembra Jesus Vázquez Torres, o trabalho era tratado apenas como negócio, enquanto o ócio era o tempo fundamental para a pessoa pensar, refletir e se relacionar. Portanto, nada de se culpar.
Agora, se você já calculou quantas horas extras serão necessárias para realizar um trabalho de forma mais rápida, ou somou a quantia de dinheiro necessária para viajar ou trocar de carro, pode ser que tais atitudes lembrem o que já dizia Karl Marx (1818-1883). "Quando se trabalha por motivos de reconhecimento e de posses, o trabalho se torna um vício, daí o termo workaholic. É algo que Marx chamou de alienação pura do trabalho", afirma Vázquez. 
Nesse ponto, a filosofia estimula a reflexão propondo o seguinte pensamento: de que forma nos dedicamos e para quê? "Quando o ter coisas se confunde com o ser pessoa, você deixa de ser um humano para se transformar em alguém completamente perdido de si mesmo", opina o especialista. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

ARTE ISLÂMICA

A arte islâmica se desenvolveu a partir da segunda metade do século VII, depois da morte do profeta Maomé, em 632. Ao longo dos séculos seguintes, o Islã cultivou o desenvolvimento de uma cultura distinta, com uma visão única das artes sacras e secular. No começo do século VIII, o mundo muçulmano havia se expandido para o oeste, alcançando a Espanha e o reino de Al-Andalus, e para o leste até Samarqand e o vale do rio Indu. Mais tarde, o Islã se expandiu para o oeste, na Turquia, onde os governantes otomanos reinaram até o início do século XX, e ainda mais para o leste, onde as dinastias mogol dominavam vastas áreas do subcontinente indiano, sobrevivendo até que os britânicos abolissem formalmente o título de "imperador", em 1858. 
Os Umayyads (661-750), parentes distantes do profeta Maomé, criaram o primeiro califado (ou dinastia) em Damasco, na Síria, e os anos de formação da arte islâmica ocorreram sob domínio deles. A arquitetura religiosa construída graças ao mecenato de Umayyad exibe as técnicas e os estilos de tradições artísticas já existentes. Os mosaicos da mesquita Umayyad (A Grande Mesquita) de Damasco (705-715), dos quais 
alguns sobreviveram nas paredes mais altas do jardim interno, deixam transparecer toda a habilidade da arte bizantina. Os mosaicos retratam uma paisagem ampla de plantas, árvores e grupos de prédios em belos tons de verde e dourado. Mesmo nesse período inicial, os mosaicos islâmicos mostram certa predileção por desenhos de vegetais e formas geométricas (chamadas no Ocidente de "arabescos"), e não pela decoração figurativa. Os mosaicos da calçada do palácio Umayyad de Khirbat al-Mafjar, perto de Jericó, na Palestina, também exibem a influência dos temas decorativos bizantinos e das formas greco-romanas, como se pode ver em O leão e as gazelas, na casa de banhos, que retrata  um leão atacando gazelas sob uma árvore frutífera. 
Sob o domínio do califado Abássida (750-1258), o centro político do Islã foi transferido para o Oriente, da Síria para o Iraque, onde Bagdá e Samarra se tornaram as capitais culturais e econômicas do mundo islâmico. As artes decorativas produzidas sob a dinastia Abássida deram continuidade ao uso intenso dos arabescos em todos os materiais, da madeira e metais a vitrais e cerâmica. O fluxo de cerâmicas chinesas para o Oriente Médio, por meio da Rota da Seda e outras rotas comerciais, criou uma demanda crescente por louças e estimulou novos avanços na fabricação de cerâmicas.
A invenção da técnica de lustro, na qual as cerâmicas são esmaltadas com compostos de prata e cobre, a fim de alcançarem um acabamento metálico, ocorreu no Iraque no século X, numa época em que as cerâmicas islâmicas tentavam imitar as porcelanas chinesas. Iraque, Egito, Síria, Irã e Espanha se tornaram os principais centros islâmicos de inovação ceramista. O segundo maior centro produtor desse tipo de cerâmica, depois do Iraque, estabeleceu-se no Cairo, que se tornou a capital do Egito durante o governo do califado Fatímida (909-1171). Embora o Islã não permita que imagens humanas enfeitem artefatos destinados às funções religiosas, na arte secular as representações humanas eram comuns. A tigela egípcia era primeiramente esmaltada e depois pintada com tinta lustrosa marrom-avermelhada. Estilisticamente, a arte fatímida mostra o surgimento de um inconfundível estilo "islâmico", sem ligações óbvias com a arte iraniana, romana e bizantina.
No oeste, cidades espanholas como Córdoba, Toledo e Sevilha foram, durante três séculos, importantes centros de aprendizado e estudo islâmicos, notavelmente em medicina, astronomia e matemática. Quando os Umayyads foram derrubados em Damasco, em 750, um único príncipe, Abd ar-Rahman I, fugiu para a Espanha, onde estabeleceu um emirado Umayyad independente, tendo Córdoba como sua capital, e onde construiu a espetacular Mezquita (Grande Mesquita) em 784. Na península Ibérica, assim como no oriente islâmico, os artistas decoravam os palácios dos governantes combinando as formas romanas e bizantinas com inscrições em árabe, desenhos geométricos e arabescos. Na verdade, Córdoba se tornou um centro produtor de artigos de luxo que atingiu seu apogeu com delicadas criações em marfim, principalmente porta-joias e embalagens de cosméticos com entalhes de arabescos ou formas animais e inscrições árabes, em geral com incrustações de pedras preciosa ou pepitas de ouro. 
Na Espanha islâmica medieval, muitos territórios foram cedidos ao governo cristão, onde emergiu um pequeno, mas próspero, principado: o Emirado Nasrida, de Granada. Por mais de dois séculos, a dinastia Nasrida (1232-1492) governou o último período de prosperidade da cultura islâmica na Espanha. Com o mecenato cristão, a educação islâmica se desenvolveu e a produção de tapeçaria e cerâmicas floresceu. O principal monumento desse período é a Alhamba (c. 1238-1358), em Granada; mais uma cidade fortificada do que um palácio, a Alhambra é magnífica, com suas fontes, praças, banhos, jardins e 23 torres decoradas no estilo nasrida, com tesselas esmaltadas, reboco pintado e esculpido e madeira entalhada. A Alhambra abriga maravilhosas abóbodas muqarnas, nas quais pequenos vãos pontudos se enfileiram, projetando-se uns sobre os outros.
A dinastia Nasrida floresceu na Espanha até o fim do século XV, mas no Oriente o domínio islâmico não gozou de tanta estabilidade. A partir de 1219, os territórios que hoje correspondem ao Irã foram devastados por repetidas invasões de hordas mongóis. Comandados por Gengis Khan (c. 1162-1227), os invasores causaram a ruína econômica e cultural quase completa do Irã muçulmano; em 1258, os ataques mongóis culminaram com o saque de Bagdá, no atual Iraque. O domínio abássida chegou ao fim e foi sucedido pela dinastia Ilkhânida (1256-1353). Uma nova ordem política surgiu com os khans mongóis governando a maior parte do Iraque, da Anatólia e do irã como subestados de seus vasto império pan-asiático.
Apesar das propostas rivais de emissários cristãos do Ocidente, as classes governantes mongóis acabaram se convertendo ao islamismo, uma mudança religiosa que anunciava um período marcado pela tolerância cultural e uma notável evolução no estilo artístico islâmico. O estilo ilkhânida se desenvolveu em Tabriz, uma cidade no noroeste do Irã; é uma mistura de três tradições: a chinesa, a iraniana e a islâmica. Talvez o maior monumento ilkhânida ainda existente seja a sepultura do sultão Öljeitü (1305-1313), na cidade ilkhânida de Soltaniyeh, no Irã. O domo do mausoléu, originalmente recoberto com tesselas azuis na parte externa, continua sendo o mais alto do Irã. Dentro do domo as abóbadas da galeria exibem vários desenhos
entalhados e emplastrados, pintados em vermelho, amarelo, verde e branco. Os desenhos se originam de livros ou pergaminhos de formas, uma confirmação de que o desenvolvimento da ilustração de manuscritos influenciou a decoração arquitetônica.
Canais comerciais que ligavam o Oriente ao Ocidente continuavam movimentados durante esse período, e as porcelanas e sedas chinesas, levadas para o Ocidente em grandes quantidades, foram extremamente influentes na arte islâmica, sobretudo em campos como a cerâmica lustrosa, os azulejos e a pintura. Na verdade, os temas chineses se tornaram indistinguíveis da arte islâmica depois da década de 1250. O azulejo lustroso de um friso do palácio real mongol de verão de Takht-i Sulayman (c. 1270), no Irã, retrata Bahram Gur, futuro rei do Irã, caçando com sua escrava preferida, a harpista Azada. Bahram Gur está prestes a matar uma gazela que coça a orelha com a pata. As tintas lustrosas azul-cobalto e turquesa combinam com o dourado para dar destaque aos principais elementos da cena. 
Não existe outro meio no qual a mistura de estilos chinês e mongol esteja mais exidente do que nos manuscritos islâmicos, cujo exemplo mais magnífico é o Grande Shahnama (Livro dos Reis) Mongol. O texto, concluído em 1010 pelo poeta Abu al-Qasim Firdausi (c.935-c.1020), é um épico baseado nas histórias de antigos heróis e reis do Irã pré-islâmico. O livro ilustrado data de 1440 a 1445. Cinquenta e sete das 200 ilustrações originais sobreviveram. Os fólios Shahnama são notáveis pelo desenho denso e pela complexidade espacial com o uso abundante de cores e de iconografias chinesas.
O declínio do poder mongol, já na segunda metade do século XIV, testemunhou a ascensão de Timor, o Coxo (1336-1405), ou Tamerlão, como era mais conhecido, cujos atos de bravura estimularam a imaginação da Europa renascentista. Durante seu período de conquistas, artistas e artesãos foram poupados, como já havia acontecido em épocas anteriores de revolta, e foram transferidos para a capital Samarcanda no que é hoje o Uzbequistão. Lá, a ilustração de livros e a pintura em miniatura continuou a prosperar, e sob o domínio de Timur a cidade se tornou uma das mais gloriosas capitais do mundo. 

sábado, 23 de junho de 2012

MISFITS

Se você gosta de heróis com super poderes, grandes tramas existenciais, pessoas com temas profundos a serem tratados como acontece em HERO com certeza você não vai gostar de Misfits. Nesta minissérie os superpoderes mutantes, as perseguições e as tramas são apenas um pano de fundo para mostrar um bando de gente desqualificada, tosca e sem o menor talento para nada tentando levar, apesar disso, uma vidinha divertida. Os personagens, são, de longe, os mais toscos já vistos e por isso mesmo, se metem em situações ridículas. Para se ter uma ideia, todo o grupo de mutantes é composto por pessoas em cumprimento de medida por crimes e delitos leves. É o tipo de série ame-me ou odeie-me. Você ainda consegue baixar a série, apesar da SOPA estar fechando servidores a rodo, no endereço: http://www.seriesfree.biz/2009/11/misfits/

sábado, 16 de junho de 2012

NEIL GAIMAN - "FAÇA UMA BOA ARTE"


Eu nunca realmente esperei me encontrar dando conselhos para pessoas se graduando em um estabelecimento de ensino superior. Eu nunca me graduei em um desses estabelecimentos. E nunca nem comecei um. Eu escapei da escola assim que pude, quando a perspectiva de mais quatro anos de aprendizados forçados antes que eu pudesse me tornar o escritor que desejava ser era sufocante.
Eu saí para o mundo, eu escrevi, eu me tornei um escritor melhor na medida em que escrevia mais, e eu escrevi um pouco mais, e ninguém nunca parecia se importar que eu estava inventando na medida em que eu prosseguia, eles simplesmente liam o que eu escrevia e pagavam por isso, ou não, e frequentemente eles me encomendavam alguma outra coisa pra eles.
O que me deixou com um saudável respeito e admiração pela educação superior do quais meus amigos e familiares, que frequentaram universidades, se curaram há muito tempo atrás.
Olhando para trás, eu trilhei uma caminhada memorável. Não tenho certeza de que posso chamá-la de uma carreira, porque uma carreira implica que eu tivesse algum tipo de plano de carreira, e eu nunca tive. A coisa mais próxima que tive foi uma lista que fiz quando tinha 15 anos com tudo que eu queria fazer: escrever um romance para adultos, um livro infantil, uma revista em quadrinhos, um filme, gravar um audiobook, escrever um episódio de Dr. Who… e assim por diante. Eu não tive uma carreira. Eu simplesmente fui fazendo a próxima coisa da lista.
Então pensei em contar para vocês tudo que eu gostaria de saber de saída, e algumas coisas que, olhando para trás pra isso, suponho que eu sabia. E também em dar o melhor conselho que já recebi, o qual falhei completamente em seguir.
O primeiro de todos: quando você começa em uma carreira nas artes você não tem ideia do que está fazendo.
Isso é ótimo. As pessoas que sabem o que estão fazendo conhecem as regras, e sabem o que é possível e o que é impossível. Vocês não. E vocês não devem. As regras sobre o que é possível e impossível nas artes foram feitas por pessoas que não tinham testado os limites do possível indo além deles. E vocês podem.
Se vocês não sabem que é impossível é mais fácil fazer. E porque ninguém fez antes, não inventaram regras para evitar que alguém faça de novo, ainda.
Em segundo, se você tem uma ideia do que você quer fazer, sobre o que você foi colocado aqui para fazer, então simplesmente vá e faça aquilo.
E isso é muito mais difícil do que parece e, algumas vezes, no fim, muito mais fácil do que você poderia imaginar.
Porque normalmente, há coisas que você precisa fazer antes de que você possa chegar aonde quer estar. Eu queria escrever quadrinhos e romances e histórias e filmes, então me tornei um jornalista, porque jornalistas têm permissão para fazer perguntas, e para simplesmente ir adiante e descobrir como o mundo funciona, e, além disso, para fazer essas coisas eu precisaria escrever e escrever bem, e eu estava sendo pago para aprender como escrever economicamente, claramente, às vezes em condições adversas, e em tempo.
Algumas vezes o caminho para fazer o que você espera fazer estará claramente delineado; e às vezes será quase impossível decidir se você estará ou não fazendo a coisa certa, porque você terá de balancear suas metas e esperanças, e alimentar-se, pagar as contas, encontrar trabalho, e se adequar ao que pode encontrar.
Uma coisa que funcionou para mim foi imaginar que onde eu gostaria de estar – um autor, principalmente de ficção, fazendo bons livros, fazendo bons quadrinhos e me mantendo através de minhas palavras – era uma montanha. Uma montanha distante. Minha meta.
E eu sabia que enquanto eu me mantivesse andando em direção à montanha eu estaria bem. E quando eu verdadeiramente não estava certo acerca do que fazer, eu podia parar, e pensar se aquilo estava me levando em direção à montanha ou me afastando dela. Eu disse não para trabalhos editoriais em revistas, trabalhos adequados que teriam pago um dinheiro respeitável porque eu sabia que, por mais atrativos que fossem, para mim eles estariam me deixando mais distante da montanha. E se essas ofertas tivessem aparecido mais cedo talvez as tivesse aceito, porque elas ainda me deixariam mais perto da montanha do que eu estava à época.
Eu aprendi a escrever escrevendo. Eu tendia a fazer qualquer coisa conquanto que parecesse uma aventura, e a parar de fazê-la quando parecia trabalho, o que significou que a vida não se parecia com trabalho.
Em terceiro lugar, quando você começa, você precisa lidar com os problemas do fracasso. Vocês precisam ser osso duro de roer, precisam aprender que nem todo projeto sobreviverá. Uma vida como freelancer, uma vida nas artes, é muitas vezes como colocar mensagens em garrafas, em uma ilha deserta, e esperar que alguém encontre uma de suas garrafas, e a abra, leia, e coloque algo em outra garrafa que fará seu caminho de volta até você: apreço, ou uma encomenda, dinheiro, ou amor. E vocês têm de aceitar que vocês poderão lançar uma centena de coisas para cada garrafa que aparecerá retornando.
Os problemas do fracasso são problemas de desencorajamento, de desespero, de ansiedade. Você deseja que tudo aconteça e você quer que as coisas aconteçam agora, e as coisas dão errado. Meu primeiro livro – uma peça de jornalismo que tinha feito pelo dinheiro, e que já tinha me comprado uma máquina de escrever eletrônica do adiantamento – deveria ter sido um bestseller. Deveria ter me pagado muito dinheiro. Se a editora não tivesse involuntariamente ido à bancarrota entre a primeira impressão se esgotar e a segunda sair, e antes que quaisquer direitos pudessem ser pagos, ele teria me dado muito dinheiro.
E eu dei de ombros, e eu ainda minha máquina de escrever eletrônica e dinheiro o bastante para pagar o aluguel por um par de meses, e decidi que eu faria o meu melhor para no futuro não escrever livros apenas pelo dinheiro. Se você não ganha o dinheiro, então você não tem nada. Se eu fizesse um trabalho do qual me orgulhasse, e não ganhasse a grana, ao menos eu teria o trabalho.
De vez em quando, eu esqueço essa regra, e sempre que o faço, o universo me bate com força e me relembra dela.
Eu não sei se isso é um problema para mais alguém além de mim, mas é verdade que nada que eu fiz na qual a única razão para fazê-lo fosse o dinheiro jamais valeu a pena, exceto como amarga experiência. Normalmente nunca dei o trabalho por encerrado ao receber o dinheiro, por outro lado. As coisas que fiz porque estava empolgado, e queria vê-las existirem na realidade, nunca me decepcionaram, e eu nunca me arrependi do tempo gasto com nenhuma delas.
Os problemas do fracasso são difíceis.
Os problemas do sucesso podem ser ainda mais difíceis, porque ninguém lhes avisa sobre eles.
O primeiro problema de qualquer tipo de sucesso limitado é a convicção inabalável de que você está fugindo com algo, e de que a qualquer momento irão descobri-lo. É a Síndrome do Impostor, algo que minha esposa Amanda batizou de Polícia da Fraude.
Em meu caso, eu estava convencido de que haveria uma batida na porta, e um homem com uma prancheta (não sei por que ele carregava uma prancheta, em minha cabeça, mas ele carregava) estaria lá, para me dizer que estava tudo acabado, e eles me pegariam e agora eu teria de ir e conseguir um trabalho de verdade, algum que não consistisse de inventar coisas e escrevê-las, e ler livros que eu quisesse ler. E então eu partiria silenciosamente e pegaria o tipo de trabalho no qual você não tem de inventar mais coisas.
Os problemas do sucesso. Eles são reais, e com sorte vocês irão experienciá-los. O ponto em que você para de dizer sim pra tudo, porque agora as garrafas que você lança ao oceano estão todas voltando, e você precisa aprender a dizer não.
Eu observei meus pares, e meus amigos, e aqueles que eram mais velhos que eu e observei quão infelizes alguns deles se sentiam: eu os ouvi contar pra mim que eles não podiam encarar um mundo no qual eles não podiam mais fazer o que sempre quiseram fazer, porque agora eles tinham de ganhar uma certa quantidade de grana todo mês apenas para se manter onde estavam. Eles não podiam ir e fazer as coisas que importavam, e que realmente queriam fazer; e isso me pareceu uma tragédia tão grande quanto qualquer problema de fracasso.
E depois disso, o maior problema do sucesso é que o mundo conspira para que você pare de fazer o que você faz, porque você é famoso. Houve um dia em que olhei e me dei conta de que eu tinha me tornado alguém que profissionalmente respondia a e-mails, e escrevia como um hobby. Eu comecei a responder menos e-mails, e fiquei aliviado por perceber que estava escrevendo muito mais.
Em quarto, eu espero que vocês cometam erros. Se vocês estão cometendo erros, significa que vocês estão por aí fazendo algo. E os erros em si podem ser úteis. Uma vez escrevi Caroline errado, em uma carta, trocando o A e o O, e eu pensei, “Coraline parece um nome real…”
E lembrem-se que não importa a área em que estejam, se você é um músico ou um fotógrafo, um artista fino ou um cartunista, um escritor, um dançarino, um designer, o que quer que você faça, vocês têm algo que é único. Vocês têm a habilidade de fazer arte.
E para mim, e para muitas das pessoas que conheci, isso tem sido um salva-vidas. O salva-vidas definitivo. Ele lhe leva através dos bons momentos e pelos outros.
A vida as vezes é dura. As coisas dão errado, na vida e no amor e nos negócios e nas amizades e na saúde e em todos os outros modos que a vida pode dar errado. E quando as coisas ficam difíceis, isso é o que vocês devem fazer.
Façam boa arte.
Eu estou falando sério. O marido fugiu com uma política(o)? Faça boa arte. Perna esmagada e depois devorada por uma jibóia mutante? Faça boa arte. IR te rastreando? Faça boa arte. Gato explodiu? Faça boa arte. Alguém na internet pensa que o que você faz é estúpido ou mau ou já foi feito antes? Faça boa arte. Provavelmente as coisas se resolverão de algum modo, e eventualmente o tempo levará a dor mais aguda, mas isso não importa. Faça apenas o que você faz de melhor. Faça boa arte.
Faça-a nos dias bons também.
E, em quinto: enquanto estiverem nisso, façam a sua arte. Façam as coisas que só vocês podem fazer.
O impulso, começando, é copiar. E isso não é uma coisa ruim. A maioria de nós só descobre nossas próprias vozes depois de termos soado como um monte de outras pessoas. Mas uma coisa que você tem que ninguém mais tem é você. Sua voz, sua mente, sua estória, sua visão. Então escreva e desenhe e construa e toque e dance e viva como só você pode viver.
No momento em que você sentir que, possibilidade, você está andando na rua nu, expondo muito de seu coração e de sua mente e do que existe em seu interior, mostrando demais de si mesmo. Esse é o momento em que você pode estar começando a acertar.
As coisas que fiz que mais funcionaram foram as coisas das quais menos estava certo, as estórias as quais eu tinha certeza de que ou funcionariam, ou, mais provavelmente, seriam o tipo de fracasso embaraçoso que as pessoas se juntam para falar a respeito até o fim dos tempos. Elas sempre tiveram isso em comum: olhando para em retrospectiva para elas, as pessoas explicam porque foram sucessos inevitáveis. Enquanto as estava fazendo, eu não tinha ideia.
E ainda não tenho. E onde estaria a graça de fazer alguma coisa que você soubesse que iria funcionar?
E às vezes as coisas que fiz realmente não funcionaram. Há estórias minhas que nunca foram reimpressas. Algumas delas nunca sequer saíram da casa. Mas eu aprendi com elas tanto quando aprendi com as coisas que funcionaram.
Sexto. Eu passarei algum conhecimento secreto de freelancer. Conhecimento secreto é sempre bom. E é útil para qualquer um que alguma vez já planejou criar arte para outras pessoas, em entrar em um mundo de freelance de qualquer tipo. Eu aprendi isso com os quadrinhos, mas se aplica a outros campos também. E é isto:
As pessoas são contratadas porque, de algum modo, elas são contratadas. Em meu caso eu fiz algo que atualmente seria fácil de checar, e me colocaria em problemas, e quando eu comecei, naqueles dias pré-internet, parecia uma estratégia de carreira sensata: quando editores me perguntavam para quem eu já tinha trabalhado, eu mentia. Eu listei uma série de revistas que soavam razoáveis, e soei confiante, e consegui os empregos. Então transformei em uma questão de honra conseguir escrever algo para cada uma das revistas que eu listei para conseguir aquele primeiro emprego, de modo que eu não menti de fato, só fui cronologicamente desafiado… Você começa a trabalhar por qualquer maneira que comece a trabalhar.
As pessoas se matêm trabalhando, em um mundo de freelances, e mais e mais do mundo de hoje é freelance, porque seu trabalho é bom, e porque são fáceis de conviver, e porque elas entregam o trabalho em tempo. E você nem precisa de todos os três. Dois em três está bem. As pessoas irão tolerar quão desagradável você é se seu trabalho for bom e você o entregar no prazo. Elas perdoarão o atraso do trabalho se ele for bom, e elas gostarem de você. E você não precisa ser tão bom quanto os outros se você é pontual e é sempre um prazer ouvi-lo(a).
Quando concordei em fazer este discurso, eu comecei tentando pensar em qual tinha sido o melhor conselho que já tinha recebido ao longo dos anos.
E ele veio do Stephen King, há vinte anos atrás, no auge do sucesso de Sandman. Eu estava escrevendo um quadrinho que as pessoas amavam e estavam levando a sério. King gostara de Sandman e de meu romance com Terry Pratchett, Belas Maldições (Good Omens), e ele viu a loucura, as longas filas de autógrafos, tudo aquilo, e seu conselho foi esse:
“Isso é realmente ótimo. Você deveria apreciar isso.”
E eu não aproveitei. O melhor conselho que já recebi que ignorei. Ao invés disso, eu me preocupei com aquilo. Eu me preocupei com o próximo prazo, a próxima ideia, a próxima estória. Não houve um momento nos próximos quatorze ou quinze anos em que não estivesse escrevendo algo em minha cabeça, ou imaginando a respeito. E eu não parei e olhei em redor e pensei, isso é realmente divertido. Eu queria ter aproveitado mais. Tem sido uma caminhada incrível. Mas houve partes da trilha que eu perdi, porque estava muito preocupado em as coisas darem errado, sobre o que viria depois, para apreciar a parte em que estava.
Essa foi a lição mais difícil pra mim, eu acho: relaxar e curtir a caminhada, porque a jornada o leva a alguns lugares memoráveis e inesperados.
E aqui, nesta plataforma, hoje, é um destes lugares. (E eu estou curtindo isso imensamente.)
Para todos os graduandos de hoje: eu desejo a vocês sorte. Sorte é útil. Frequentemente vocês descobrirão que quanto mais duro vocês trabalharem, e mais sabiamente, mais sortudos vocês serão. Mas existe sorte, e ela ajuda.
Nós estamos em um mundo em transição neste momento, se vocês estão em qualquer campo artístico, porque a natureza da distribuição está mudando, os modelos pelos quais os criadores entregavam seu trabalho ao mundo, e conseguiam manter um teto sobre suas cabeças e comprar alguns sanduíches enquanto faziam isso, estão todos mudando. Eu falei com pessoas do topo da cadeia alimentar em publicações, vendas de livros, em todas essas áreas, e ninguém sabe com o que a paisagem se parecerá daqui a dois anos, que dirá daqui a uma decada. Os canais de distribuição que as pessoas construíram ao longo do último século ou mais estão contínua mudança, para os impressos, para artistas visuais, para músicos, para pessoas criativas de todos os tipos.
O que é, por um lado, intimidante e, por outro, imensamente libertador. As regras, as suposições, os agora nós devemos fazer de como você consegue expor seu trabalho, e o que você faz a seguir, estão ruindo. Os porteiros estão deixando seus portões. Vocês podem ser tão criativos quanto precisarem para conseguir visibilidade para seus trabalhos. YouTube e a web (e o que quer que venha depois do YouTube e da web) podem dar a vocês mais pessoas de audiência do que a televisão jamais deu. As velhas regras estão desmoronando e ninguém sabe quais são as novas regras.
Então inventem suas próprias regras.
Alguém recentemente me perguntou como fazer alguma coisa que ela achava que seria difícil, em seu caso, gravar um audiobook, e eu sugeri que ela fingisse que ela era alguém que poderia fazê-lo. Não fingir fazê-lo, mas fingir que era alguém que podia fazer. Ela colocou uma nota para este efeito na parede do estúdio, e disse que isso ajudou.
Então sejam sábios, porque o mundo necessita de mais sabedoria, e se vocês não puderem ser sábios, finjam ser alguém que é sábio, e então apenas se comportem como eles se comportariam.
E agora vão, e cometam erros interessantes, cometam erros maravilhosos, façam erros gloriosos e fantásticos. Quebrem regras. Façam do mundo um lugar mais interessante por vocês estarem aqui. Façam boa arte.



quinta-feira, 14 de junho de 2012

AH, O AMOR! por Gustavo Ranieri

O roteiro todo mundo sabe: você conhece alguém, se apaixona, começa a namorar e, quem sabe, um dia percebe que é com aquela pessoa que deseja compartilhar uma vida. O que talvez tenha passado  em branco é que algumas sensações e intenções vividas guardam muito mais filosofia do que se imagina. O friozinho na barriga que vem ao se conhecer alguém interessante é o início do que muitos filósofos estudaram como o desejo de amar. " O amor é uma inspiração e visa a alguma forma de realização", destaca Guilherme Castelo Branco. 
Mas, assim como a filosofia, o amor também é múltiplo. Platão, por exemplo, chegou até a apresentar esse tema com o conceito que nos acostumamos a chamar de almas gêmeas. "No diálogo "O Banquete", escrito por Platão, a ideia do amor vem como predestinação. Duas pessoas se buscam porque eram antes inteiras e depois foram cindidas em duas metades. Para Sócrates há o amor como Eros, ou seja, você ama aquilo que te falta. E tem Santo Agostinho (354-430), que fala do amor por Deus, o amor por outro homem e por si mesmo", afirma Dulce Critelli, titular do Departamento de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). 
Se você é do tipo que adora dar presentes, lembre que até esse aspecto comunga com a filosofia. É o momento, como explica Castelo Branco, em que você mostra que não está trancado em seu próprio mundo, mas sim aberto para compartilhar com os outros. "Numa sociedade de consumo em que todos pensam em poupar o máximo possível e dar o mínimo, dar um presente é uma coisa generosa, uma grande qualidade altruísta", afirma.
E, entre tantos nomes, não podemos esquecer que quando falamos de amor nos remetemos, em algum momento, à visão do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), para quem duas pessoas se apaixonavam  e casavam com o objetivo inconsciente de fazer do amor a garantia da perpetuação da espécie e de si mesmo em um novo ser. "A inclinação crescente entre dois amantes é, propriamente falando,  já a vontade de vida do novo indivíduo, que eles podem e gostariam de procriar", dizia. 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

MARY CASSATT

Esta Mulher Costurando foi captada num momento de tranquilidade, enquanto costurava. Não é um retrato, mas um estudo da interrelação entre cor e luz, numa cena ao ar livre, que deve ter sido pintada a partir do natural. A abordagem realista da artista provém de seus estudos na Academia da Pensilvânia, com Thomas Eakins. Mais tarde, na Europa, Cassatt aproximou-se intimimamente de Edgar Degas, que teve grande influência sobre seu estilo. 

Cassatt participou da exposição dos impressionistas de 1874 e, apesar de americana, é classificada como fazendo parte do movimento impressionista francês. 
 Muitos de seus quadros representam mães com seus filhos e são pintados com uma ternura feminina que não se encontra em outras obras do Impressionismo.
Cassat (EUA 1844-FRA 1926) foi muito influenciada por xilogravuras japonesas e destacou-se na execução de gravuras em madeira. Ela é uma das grandes responsáveis pela popularização do Impressionismo nos Estados Unidos. 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

VAMOS SER AMIGOS por Gustavo Ranieri

É impossível saber como o filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) reagiria se pudesse acessar o Facebook. Mas é provável que se sentisse espantado ao ver a quantidade de amigos que uma pessoa costuma manter na rede social. Nascido na Grécia e aluno de Platão (428-348 a.C.), a amizade foi um dos assuntos aos quais ele mais se dedicou. Dizia no livro Ética a Nicômano que, para existir uma amizade verdadeira, era necessária "a consciência, a qual só é possível se duas pessoas são agradáveis e gostam das mesmas coisas". Quem também muito falou sobre o assunto foi o romano Marco Túlio Cicero (106-43 a.C.), especialmente na publicação Diálogo sobre a Amizade. Ela só seria possível, segundo ele, se tudo o que a envolve fosse verdadeiro e espontâneo. 
Entendido isso, você então começa a se lembrar daqueles que realmente estão presentes, na hora da cerveja e na hora do desabafo, até que a morte os separe. Mas também se recorda de quem muito lhe parecer ser amigo, mas não o era de fato. Mais uma vez, quando essa análise se torna mais profunda dentro da mente, assumimos esse "pensar filosófico".
"O conceito de amizade não mudou em nada. É um modo de lidar com o outro extremamente raro e difícil. Dizia-se que quem tinha amigo não necessitava de análise, e isso continua sendo verdade", salienta o filósofo espanhol Jesus Vázquez Torres, doutor em filosofia e ciências sociais e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). 
Nesse sentido, quando preparamos um jantar para um amigo, um almoço em família ou participamos de uma reunião informal, estamos mais uma vez vivenciando conceitos filosóficos. "Compartilhar um bom prato cria uma atmosfera favorável para a sedimentação de amizades profundas. Amizade é um dom, é puramente gratuita e profunda", diz Torres. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

TUDO É FILOSOFIA por Gustavo Ranieri


São 7h30. Ainda sonolento, você se revira na cama antes de tomar o impulso para se levantar. Depois, toma o café da manhã, escova os dentes e, ainda a caminho do trabalho, começa a se questionar sobre qual será a resposta para a proposta que recebeu da empresa há poucos dias. Se por um lado avalia os benefícios que sua escolha poderá trazer - incluindo mais dinheiro, crescimento e prestígio profissional -, por outro, também sabe que a mesma escolha, poderá angariar inimigos e até prejudicar alguém. 
Qualquer que seja sua profissão, a cena aqui descrita certamente já aconteceu com você, mesmo que em contexto diferente. E a oferta de se posicionar a favor de alguém ou de omitir alguma informação importante em troca de benefícios, por exemplo, pode até ter soado tentadora. Mas o que você talvez não saiba é que, no momento em que decidiu refletir melhor sobre as dúvidas que martelavam o cérebro, você esteve, ainda que de forma simples, "bebendo" no estudo milenar da filosofia e debatendo um assunto que há muito é tratado por ela: a ética. Sim, porque tudo é filosofia e, desde seu surgimento na Grécia, por volta do século 6 a.C, até os dias de hoje, ela está mais presente do que se imagina.
"A gente discute a ética o tempo inteiro. Sempre que abrimos os olhos para um cerne de questões que têm vinculação com pessoas que estão ao nosso lado, estamos pensando ética", enfatiza Guilherme Castelo Branco, líder do Laboratório de Filosofia Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "Além disso, ela também tem a ver com nosso trabalho. Como nos comportamos eticamente nessa relação produtiva, uma vez que envolve outras pessoas, interesses e oportunidades que você pode ter e que, muitas vezes, prejudicam outras pessoas?", questiona ele.
Mas não é somente no ambiente de trabalho que tal tema vem à tona. Quando nos revoltamos com alguém que fura a fila, seja no supermercado, seja no cinema, estamos, mesmo que por poucos segundos, questionando a ética. O mesmo acontece quando nos indignamos ao ver alguém ser enganado. 

terça-feira, 5 de junho de 2012

CARAVAGGIO

Logo após a crucificação, São Tomé toca as chagas de Cristo para verificar se são reais. As cabeças de Cristo e dos três apóstolos são o foco da composição. O momento é intenso. Os apóstolos olham para São Tomé que, coma testa profundamente sulcada, mergulha seu dedo no flanco de Cristo. O drama deste chocante detalhe realista é intensificado pelo contraste gritante da luz e das sombras escuras (efeito conhecido como chiaroscuro); o fundo está ausente. 

Caravaggio (Italia 1571-1610) tornou-se famoso por seu grande realismo e sua recusa à idealização, abordagem revolucionária para a época.
Com frequência utilizava tipos camponeses rudes como modelos para seus apóstolos, e diz-se até que pintou uma de suas Virgens a partir de uma prostituta afogada, retirada do rio Tibre.
Apesar de sua reputação pessoal meio duvidosa (tinha atritos frequentes com as autoridades), pode-se dizer que Caravaggio, sozinho, praticamente revolucionou a arte. 
Até hoje sua pintura direta tem o poder de nos surpreender. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O TEMPO E OS TEMPOS NA FOTOGRAFIA - parte 3

A linguagem fotográfica em busca da sua gramática
Todo produto da cultura é um produto datado. Seja ele um texto, um quadro, uma foto ou qualquer outra manifestação artística do espírito humano, no fundo trata-se de uma linguagem que expressa, em si, um tempo. Na fotografia, essa marca do tempo é de dupla natureza. Em parte ela é ditada pelo período histórico em que a fotografia foi produzida; em parte é fruto da interação mental do fotógrafo com sua época. Assim, aspectos de moda ou arquitetura, só para citar dois exemplos, são detalhes registrados pelas fotografias que as transformarão, um dia, em documentos para os historiadores de tempos futuros; já o fotógrafo propriamente dito, a relação é de outra ordem e se dá a partir do seu histórico pessoal. A visão de mundo do fotógrafo é decorrente de tudo aquilo que ele leu, ouviu, viu e sentiu, uma espécie de memória cultural que, de algum modo, se manifesta em suas fotografias.
Quem melhor traduziu essa dualidade da fotografia foi John Szarkowski, um dos mais conceituados curadores do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, responsável pela renomada mostra fotográfica Modos de Olhar. Para Szarkowski, a fotografia é um espaço demarcado pelas margens do fotograma, que se apresenta ao observador ora como janela, ora como espelho. Algumas vezes a foto é uma janela para o mundo visível, ou seja, um registro emoldurado pelo visor daquilo que se descortina diante dos olhos do fotógrafo; outras vezes apresenta-se como espelho, quando a imagem obtida reflete o espírito de quem a fotografou. Atrevo-me, inclusive, a ir além, sugerindo que toda fotografia é, a um só tempo, janela e espelho. A história da fotografia vem reafirmando, através dos fotógrafos que elege como seus mais expressivos representantes, que o domínio da técnica muitas vezes é secundário. O diferencial desses mestres é, não raro, a sua capacidade de produzir uma obra inovadora a partir da afinidade entre o tema escolhido e a sensibilidade do olhar que o registra. 
Ao que tudo indica, a essência do trabalho desses fotógrafos que o tempo acabou transformando em referência para os demais passa pela compreensão de uma questão central que é exclusiva da imagem fotográfica. Isso porque, de todos os meios de expressão, a fotografia é o único que em vez de acrescentar suprime elementos. Um texto é constituído por letras que se agregam em palavras, palavras que viram frases e frases que se transformam em parágrafos; uma pintura geralmente parte da tela em branco e vai, pouco a pouco, sendo preenchida por camadas sucessivas de tinta; uma escultura, um projeto arquitetônico, um filme, um site e até mesmo um papo seguem o mesmo percurso: são constituídos por adição. A fotografia, ao contrário, é subtrativa. Ao enquadrarmos um determinado assunto, a primeira coisa que fazemos é excluir do quadro a visão periférica; depois, no instante do clique, outra subtração: elegemos um fragmento 
de tempo e descartamos o antes e o depois, fixando-nos no instante; e, por fim, quando a luz é aprisionada nos grãos do filme ou nos pixels da imagem digital, o que se descarta é a profundidade de um mundo tridimensional, substituída pela noção de perspectiva embutida no plano da imagem fotográfica. A fotografia introduz, pois, uma imagem lapidada em diversos níveis, uma imagem-síntese.