sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

CASABLANCA DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Bom, quem não assistiu Casablanca e diz gostar de cinema está em falta. Esse filme despretencioso acabou virando um clássico justamente por ter sido, desde sua concepção, um filme despretencioso sem maiores intenções. Discussões e informações sobre este filme não faltam. O que vou fazer aqui é apresentar a continuação que foi dada por Luis Fernando Veríssimo em um conto. Para os que assistiram, uma chance de relembrar. Para os que não viram, uma oportunidade para conhecer um pouco sobre a obra.



As time goes by


Conheci Rick Blaine em Paris, não faz muito. Ele tem uma espelunca perto da Madeleine que pega todos os americanos bêbados que o Harry's Bar expulsa. Está com 70 anos, mas não parece ter mais que 69. Os olhos empapuçados são os mesmos, mas o cabelo se foi e a barriga só parou de crescer porque não havia mais lugar atrás do balcão. A princípio ele negou que fosse Rick.

- Não conheço nenhum Rick.

- Está lá fora. Um letreiro enorme. Rick's Cafe Americain.

- Está? Faz anos que não vou lá fora. O que você quer?

- Um bourbon. E alguma coisa para comer.

Escolhi um sanduíche de uma longa lista e Rick gritou o pedido para um negrão na cozinha. Reconheci o negrão. Era o pianista do café do Rick em Casablanca. Perguntei por que ele não tocava mais piano.

- Sam? Porque só sabia uma música. A clientela não aguentava mais. Ele também faz sempre o mesmo sanduíche. Mas ninguém vem aqui pela comida.

Cantarolei um trecho de As time goes by. Perguntei:

- O que você faria se ela entrasse por aquela porta agora?

- Diria: "Um chazinho, vovó?". O passado não volta.

- Voltou uma vez. De todos os bares do mundo, ela tinha que escolher logo o seu, em Casablanca, para entrar.

- Não volta mais.

Mas ele olhou, rápido, quando a porta se abriu de repente. Era um americano que vinha pedir-lhe dinheiro para voltar aos Estados Unidos. Estava fugindo de Mitterrand. Rick o ignorou. Perguntou o que eu queria além do bourbon e do sanduíche de Sam, que estava péssimo.

- Sempre quis saber o que aconteceu depois que ela embarcou naquele avião com Victor Laszlo e você e o inspetor Louis se afastaram, desaparecendo no nevoeiro.

- Passei 40 anos no nevoeiro - respondeu ele. Obviamente, não estava disposto a contar muita coisa.

- Eu tenho uma tese.

Ele sorriu:

- Mais uma...

- Você foi o primeiro a se desencantar com as grandes causas. Você era o seu próprio território neutro. Victor Laszlo era o cara engajado. Deve ter morrido cedo e levado alguns outros idealistas com ele, pensando que estavam salvando o mundo para a democracia e os bons sentimentos. Você nunca teve ilusões sobre a humanidade. Era um cínico. Mas também era um romântico. Podia ter-se livrado de Laszlo e ficado com ela, mas preferiu o grande gesto e se igualar a Laszlo aos olhos dela. Por quê?

- Você se lembra do rosto dela naquele instante?

Eu me lembrava. Mesmo através do nevoeiro, eu me lembrava. Ele tinha razão. Por um rosto daqueles, a gente sacrifica até a falta de ideais.

A porta se abriu de novo e nós dois olhamos rápido. Mas era apenas outro bêbado.

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