quarta-feira, 28 de março de 2012

MILLÔR FERNANDES (1923-2012)



APOLO E DAFNE

Dáfne era uma rica herdeira do Olimpo, coisa que não era pouca porcaria(1). Andava por ali se rebolando, cultivando paixões ferozes, como todos os deuses, semideuses e antideuses(2), quando, por isso mesmo, Eros, o malemolente, resolveu que ela não ia mais tentar ninguém e mandou-lhe nos peitos um dardo de chumbo que a tornou, dai em diante, completamente indiferente a beijinhos, beijões, caricias quentes e coisas que tais, quando partidas do sexo oposto.
E, querendo balancer ainda mais o coreto do Olimpo, Eros caquerou uma seta de ouro nos cornos de Apolo, na intenção de acabar também com sua vasta inspiração amorosa (3).
Aconteceu o contrário: Apolo esqueceu todas as teorias sentimentais e, libido em riste(4), atirou-se a caça feminina, com uma fixação mais profunda na própria Dáfne. E quando esta, certa manhã, passava pela sua porta(5), Apolo tentou agarrá-la no peito e na raça. Dáfne deu-lhe um drible, fez uma finta, e saiu correndo, vomitando de horror diante daquele homem querendo coisas com ela. 
Saltou um fosso – ele atrás – cruzou uma Estrada de ferro – ele atrás. Já morta de cansada, percebendo que estava no meio de um deserto, e que não tinha saida, a sandaliona(6) transformou um boi que ia passando num pé de louro e continuou correndo. Apolo, vendo o loureiro, esqueceu Dáfne, ficou muito louco, começou a encher a cabeça com folhas da árvore e morreu de gozo e Glória ali mesmo. Um desvio como outro qualquer.

Moral: Os homens preferem os louros.

(1) Ou seja, era muita porcaria. Dizer que uma coisa não é, pra dizer que ela é mais do que é, na negativa da afirmação ou afirmação pela negativa, chama-se litotes. Millôr é cultura. (2) O monoteismo, mais tarde, concentrou o poder. (3) Aquilo que os espanhóis vulgarmente chamam de el tesón. (4) Valha a expressão! (5) Deus tem porta? (6) As duronas ainda não usavam sapato.


Fábulas Fabulosas

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