terça-feira, 17 de julho de 2012

O TEMPO E OS TEMPOS DA FOTOGRAFIA parte 4

A FOTOGRAFIA NO MOMENTO DECISIVO
A concepção da fotografia enquanto síntese era a marca registrada do lendário fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson, cuja morte em agosto de 2004, prestes a completar 96 anos, mereceu as manchetes de praticamente todas as mídias ao redor do mundo. Bresson, que havia estudado pintura dos 13 aos 21 anos e que voltou a pintar nos últimos 25 anos de sua vida, sabia como ninguém que a fotografia e o tempo tinham uma relação totalmente peculiar. Ele costumava dizer que enquanto a pintura era uma meditação, a fotografia era ação, e ao fotógrafo competia entrar em sintonia plena com o assunto fotografado para capturar aquele momento único em que todas as variáveis em jogo conspiravam par a grande fotografia. Um momento em que a informação contida na cena, aliada ao rigor plástico da composição e ao clímax da ação em curso se orquestrassem diante dos olhos do fotógrafo e exigissem quase instintivamente, que o botão disparador fosse acionado. Enfim, o "momento decisivo". Em uma de suas frases mais célebres, Cartier-Bresson disse que "fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração". E complementou: "com o olho que está fechado, olha-se para dentro, com o outro olha-se para fora", como que ratificando a metáfora da janela e do espelho proposta por Szarkowski.
Mais do que um fotógrafo com apurada noção de composição, Bresson sempre intuiu o imenso potencial de comunicação da imagem fotográfica, capaz, inclusive, de transformá-lo, a sua revelia, em um dos ícones do século XX. A carreira do jovem pintor foi precocemente interrompida quando ele conheceu a Leica, uma pequena câmera alemã de 35mm que lhe permitia aproximar-se de seus "alvos" sem ser notado e capturar o tão cobiçado "momento decisivo". Aos 22 anos foi para a Costa do Marfim, onde passou um ano fotografando o ofício dos caçadores. Quando do seu regresso a Paris, publicou a história na prestigiosa revista Vu e, na esteira do sucesso obtido, iniciou uma série de alentados ensaio sobre a condição humana nas mais recônditas regiões do planeta, que se estendeu pelas décadas seguintes. Ainda nos anos de 1930 desafiou o moralismo vigente fotografando prostitutas e travestis no México, foi à Espanha registrar a guerra civil e iniciou a cobertura fotográfica da Segunda Guerra Mundial, uma aventura que lhe custou quase três anos em um campo de concentração nazista, de onde fugiu para trabalhar na resistência francesa.
Em 1947, Cartier-Bresson funda em Paris a Magnum Photos, uma agência de fotógrafos independentes que acaba se constituindo em um autêntico divisor de águas na história da fotografia documental. Em última instância, a Magnum possibilitava aos fotógrafos uma dedicação exclusiva aos seus projetos autorais, amparados por uma estrutura comercial que lhes permitia viver com os recursos arrecadados a partir da veiculação de suas fotos na grande imprensa ou entre clientes independentes. Respaldado pela estrutura que ajudou a consolidar, Bresson mergulhou seu olhar no mundo do pós-guerra e acabou sendo o primeiro ocidental a fotografar a então União Soviética, a registrar o funeral de Gandhi na Índia e a fotografar a China durante a Revolução Cultural promovida por Mao Tsé-Tung.
 Ao lamentar a morte de Cartier-Bresson, o presidente da França, Jacques Chirac, classificou-o como "o mais talentoso fotógrafo da sua geração", e enfatizou que o mundo acabava de perder um gênio, cujo mérito tinha sido o de realizar o mais contundente e apaixonado retrato do século XX. 

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