segunda-feira, 4 de junho de 2012

O TEMPO E OS TEMPOS NA FOTOGRAFIA - parte 3

A linguagem fotográfica em busca da sua gramática
Todo produto da cultura é um produto datado. Seja ele um texto, um quadro, uma foto ou qualquer outra manifestação artística do espírito humano, no fundo trata-se de uma linguagem que expressa, em si, um tempo. Na fotografia, essa marca do tempo é de dupla natureza. Em parte ela é ditada pelo período histórico em que a fotografia foi produzida; em parte é fruto da interação mental do fotógrafo com sua época. Assim, aspectos de moda ou arquitetura, só para citar dois exemplos, são detalhes registrados pelas fotografias que as transformarão, um dia, em documentos para os historiadores de tempos futuros; já o fotógrafo propriamente dito, a relação é de outra ordem e se dá a partir do seu histórico pessoal. A visão de mundo do fotógrafo é decorrente de tudo aquilo que ele leu, ouviu, viu e sentiu, uma espécie de memória cultural que, de algum modo, se manifesta em suas fotografias.
Quem melhor traduziu essa dualidade da fotografia foi John Szarkowski, um dos mais conceituados curadores do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, responsável pela renomada mostra fotográfica Modos de Olhar. Para Szarkowski, a fotografia é um espaço demarcado pelas margens do fotograma, que se apresenta ao observador ora como janela, ora como espelho. Algumas vezes a foto é uma janela para o mundo visível, ou seja, um registro emoldurado pelo visor daquilo que se descortina diante dos olhos do fotógrafo; outras vezes apresenta-se como espelho, quando a imagem obtida reflete o espírito de quem a fotografou. Atrevo-me, inclusive, a ir além, sugerindo que toda fotografia é, a um só tempo, janela e espelho. A história da fotografia vem reafirmando, através dos fotógrafos que elege como seus mais expressivos representantes, que o domínio da técnica muitas vezes é secundário. O diferencial desses mestres é, não raro, a sua capacidade de produzir uma obra inovadora a partir da afinidade entre o tema escolhido e a sensibilidade do olhar que o registra. 
Ao que tudo indica, a essência do trabalho desses fotógrafos que o tempo acabou transformando em referência para os demais passa pela compreensão de uma questão central que é exclusiva da imagem fotográfica. Isso porque, de todos os meios de expressão, a fotografia é o único que em vez de acrescentar suprime elementos. Um texto é constituído por letras que se agregam em palavras, palavras que viram frases e frases que se transformam em parágrafos; uma pintura geralmente parte da tela em branco e vai, pouco a pouco, sendo preenchida por camadas sucessivas de tinta; uma escultura, um projeto arquitetônico, um filme, um site e até mesmo um papo seguem o mesmo percurso: são constituídos por adição. A fotografia, ao contrário, é subtrativa. Ao enquadrarmos um determinado assunto, a primeira coisa que fazemos é excluir do quadro a visão periférica; depois, no instante do clique, outra subtração: elegemos um fragmento 
de tempo e descartamos o antes e o depois, fixando-nos no instante; e, por fim, quando a luz é aprisionada nos grãos do filme ou nos pixels da imagem digital, o que se descarta é a profundidade de um mundo tridimensional, substituída pela noção de perspectiva embutida no plano da imagem fotográfica. A fotografia introduz, pois, uma imagem lapidada em diversos níveis, uma imagem-síntese. 

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