terça-feira, 6 de julho de 2010

ANDY WARHOL - MR. AMERICA

Hoje vamos visitar a exposição Andy Warhol, Mr. America, uma retrospectiva abrangente da produção do artista norte-americano Andy Warhol (Pensilvânia/1928 - Nova York/1987). Ao lado Self-Portrait (Fright Wig), 1986 (Auto retrato - Peruca Arrepiada) feito com uma Polaroid Polacolor ER - 10,8 x 8,6 cm.

Sua vida e obra são consideradas por muitos um reflexo das tensões e contradições que construíram e caracterizaram a imagem pública dos Estados Unidos da América, ao longo do século XX.

Como um convite para investigar as ideias e práticas de Andy Warhol, o curador Philip Larrat-Smith selecionou trabalhos realizados desde o início da produção do artista, destacando o período entre 1961 e 1968, no qual foram produzidas obras bastante conhecidas, como os retratos da atriz Marilyn Monroe, da primeira-dama dos Estados Unidos Jacqueline Kennedy e do revolucionário e controverso líder chinês Mao Tsé Tung.

Organizada em colaboração com o Museu Andy Warhol, de Pittsburgh (EUA), a mostra já foi apresentada no Museu do Banco da República (em Bogotá, Colômbia) e no Malba - Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Argentina) antes de ser exibida na Estação Pinacoteca de São Paulo.

Observe esta foto ao lado. Embora exista uma alteração de luz e sombra que torna umas imagens sutilmente mais claras que outras, nesta série de trabalhos Warhol costumava reunir várias impressões de uma mesma imagem de seu arquivo.
Para ampliar o conhecimento sobre o contexto emque o trabalho foi feito, é importante mencionar que, após ter ganho uma câmera fotográfica em 1976, Andy Warhol passou a registrar cada instante de sua vida, com foco nas pessoas que conhecia e em elementos dos lugares por onde passava. As imagens captadas era arquivadas para uso posterior e davam origem a trabalhos feitos a partir de diferentes técnicas e linguagens.
A imagem deste monumento já foi bastante explorada pelo cinema e pela publicidade. Baseando-se nas maneiras que esta imagem nos foi apresentada que idéias podemos associar a esse monumento?
Nesta obra vemos a imagem da Estátua da Liberdade. Reconhecida em todo o mundo como um símbolo dos Estados Unidos, foi inaugurada em 1886 para comemorar o centenário da Declaração de Independência. Sua imagem é uma das mais fotografadas, estampadas e reproduzidos no mundo, em geral aludindo à América e ao chamado "sonho americano", ou seja, à ideia de que os Estados Unidos são o país das oportunidades, em que qualquer um, por meio de seu talento e capacidades pessoais, pode ascender socialmente. (Er... sem comentários.)
O monumento representa também a ideia de que "a liberdade ilumina o mundo" e de que todas as pessoas são livres para viver seus direitos e deveres. (O que é isso? Estados Unidos versão Walt Disney? Eu só copiei isso hein gente. Eu juro!)
Warhol sempre pesquisou os limites das tecnologias. Neste trabalho aliou os mecanismos fotográficos aos procedimentos artesanais da costura. Observar as "fotografias costuradas" de Warhol nos leva a pensar no fazer do artista como uma prática que reside no limite entre o "feito à mão" e o "feito por máquinas".
Para realizar os trabalhos desta série, o artista escolhia uma fotografia de seu arquivo e fazia algumas ampliações da imagem. Depois, elas eram costuradas sobre um suporte, gerando imagens combinadas.

A série com reproduções de enlatados como esta ao lado chamada Campbell's Soup I: Tomato, 1968 (Sopa Campbell's I: tomate) serigrafia sobre papel - 88,9 x 58,9 cm trata da imagem de diferentes tipos de lata de sopa Campbell, comercializadas nos Estados Unidos durante todo o século XX a custos acessíveis - o que as tornou um produto bastante conhecido entre os estadunidenses, em especial entre as décadas de 1930 e 1950. Entre os inúmeros estímulos visuais, é forte a sensação de repetição e acúmulo. De certo modo nos fazem lembrar de produtos dispostos numa prateleira de supermercado, ao mesmo tempo que nos levam a pensar em seriação de um mesmo padrão.

A técnica utilizada é um tipo de gravura denominado serigrafia. Trata-se de um processo de impressão no qual o artista cria uma matriz, ou seja, um tipo de máscara da imagem que deseja reproduzir, possibilitando, com uma única matriz, realizar várias imagens semelhantes. A escolha dessa técnica não foi aleatória: entre suas características podemos destacar o fto de ser um processo de impressão amplamente utilizado na indústria em geral, até os dias atuais, contribuindo, assim, para a temática explorada pelo artista por reforçar a analogia com a sociedade de consumo e, consequentemente, ao sonho americano.


Observe as imagens. Elas mostram exatamente o mesmo produto? Durante toda a década de 1960, Andy Warhol explorou as imagens e embalagens dos diferentes tipos de sopas Campbell.

À primeira vista podemos perceber as latas como sendo todas iguais. Entretanto, aos poucos percebemos a variação das imagens, tanto no que diz respeito às cores quanto em relação aos textos dos rótulos. Podemos pensar nestas imagens omo metáforas que convidam o público a questionar os limites da individualidade em meio à sociedade de massa. Ao evidenciar os rótulos das embalagens como único indício de diferenciação entre os produtos, Warhol nos convida a refletir: o que temos em comum com os outros seres humanos, e o que nos torna únicos?

A semelhança das latas e a diferenciação dos rótulos também podem nos levar a pensar sobre a relação entre forma e conteúdo, ou seja, essência e aparência. Assim, também nos conduz a pensar: Quem somos realmente e como nos apresentamos ao mundo?

Ao lado temos Hammer and Sickle, 1975-1976 (Foice e Martelo) feito com Polaroid Polacolor - 108,10,8 x 8,6 cm.

Warhol realizou diversas imagens do martelo com a foicem explorando diferentes formas de abordar e exibir estes que são símbolos do trabalhador do campo e do operário utilizados na difusão dos ideais comunistas. A sobreposição desses objetos é símbolo do comunismo e passa a ser utilizado a partir da Revolução Russa em 1917, sendo amplamente difundido durante todo o século XX.

Após observar a imagem, pode-se questionar: qual seria o interesse de Warhol, assumidamente orgulhoso de ser "norte americano", em criar imagens ligadas ao imaginário comunista?



Após ter realizado o retrato do líder Mao Tse-tung, Andy foi bombardeado de perguntas. A partir de então, passou a dar depoimentos de que quando falasse de comunismo faria martelos e foices. Não se trata de propaganda política, mas sim de explorar os símbolos das ideias políticas e econômicas do comunismo, assim como o fez com os símbolos da América e do capitalismo.
Warhol, ao longo de sua trajetória, retratou-se por diversas vezes e de diferentes maneiras. O ato do artista, de retratar a si mesmo, passa a ser comum a partir do século XV, momento em que as práticas comerciais são retomadas após o período medieval e o sistema de produção feudal. Ser retratado - antes da invenção da fotografia - era motivo de honra e sinal de relevância social. Demonstrava o interesse pela permanência histórica da imagem do retratado, perpetuando sua memória, ao perenizar sua imagem.

Neste sentido, um auto retrato é um símbolo de status e da necessidade de ser reconhecido. Entretanto, na obra ao lado a face do artista aparece de maneira confusa, nossa atenção é desviada por outros elementos. Podemos ver as marcas da tinta sobre a tela e a face do artista, que parece surgir de forma perturbadora de dentro da escuridão. Embora os tons que emergem de sua cabeça sejam mais claros que o fundo, a observação de detalhes do rosto se torna difícil em razão dessas interferências visuais.

A estampa de camuflagem militar foi originalmente desenvolvida como estratégia para proteger os soldados, dificultando que fossem avistados por seus inimigos em meio à paisagem do entorno onde aconteciam as batalhas.

Entre os sentidos possíveis da escolha desta estampa pelo artista, talvez ele se coloque como alguém que precisa de proteção dos olhares dos outros. Entretanto, como trata-se de um auto retrato, e portanto de uma opção pela exposição de si mesmo, poderíamos perguntar do que ele se esconde e para quem ele se expõe?

A camuflagem apresenta aspectos simbólicos interessantes, que provavelmente motivaram o artista, como o fato de ser atribuída a um grupo específico; sua propriedade de oferecer invisibilidade, mesclando quem a usa com a natureza, além de ser, ela própria, uma simplificação deste ambiente natural; a maneira como, em sua época, a moda já se apropriara desta padronagem, utilizando-a como produto, oferece um sentido bem distinto do proposto no uso militar.

Você já deve ter percebido que o autor utilizou muito a Polaroid para a captura de suas imagens. A Polaroid é um tipo de máquina fotográfica instantânea que registra a imagem diretamente no papel fotográfico, possibilitando ao fotógrafo ver a foto tirada em poucos segundos. Para você que vive na era digital isso pode parecer bobagem mas na época era a única forma de ter um resultado imediato para as fotografias batidas. A Polaroid fez muito sucesso durante as décadas de 1970 e 80, pois tratava-se de um grande avanço no processo fotográfico, ideal para uma sociedade que supervalorizava as inovações que contribuíam na otimização do seu tempo, oferecendo mais comodidade.

Vamos observar agora outra fotografia que compõe o acervo de auto retratos entitulada Self-Portrait in Drag, 1980 ( Auto retrato como drag queen) Polaroid Polacolor 2 - 10,8 x 8,6 cm.


Apesar dos adornos femininos, é possível reconhecer a face masculina. Uma das estratégias artísticas de Andy Warhol era construir personagens e, neste caso, ele mesmo se traveste como mulher e encena poses para a máquina fotográfica.

Considerando os cabelos, a maquiagem e a sugestão do elegante decote que deixa os ombros à mostra, num intenso contraste com a pele clara, podemos pensar que Warhol inspirou-se aqui na imagem de uma mulher sofisticada, como as divas americanas de Hollywood que tanto admirava e para quem costumava enviar cartas durante sua adolescência.

O ato de travestir-se foi explorado por Warhol, tanto em sua produção artística como em sua vida, como estratégia para pesquisar os temas da identidade e da sexualidade.


Para ele, a atitude de vida dos "garotos que se transformavam em garotas" era arte: para o artista, eles dedicavam horas de trabalho árduo para criar uma nova imagem, motivados pela profunda identificação com a imagem feminina, principalmente das "estrelas".

A estratégia de personificação é recorrente no trabalho do artista, e podemos relacioná-la com a ideia de que qualquer pessoa poderia reinventar-se e colocar-se no mundo de forma totalmente intencional, exibindo suas fragilidades e forças, ideias e posturas.


Para ir além, confrontando a fotografia com os tempos atuais, podemos nos perguntar: por meio de quais elementos é construída a ideia de feminilidade, elegância ou beleza da mulher de hoje?


Warhol também se dedicou a representar aspectos da morte através das imagens de cadeiras elétricas, como nessa serigrafia ao lado feita no ano de 1967. A cadeira elétrica era um dos métodos adotados pelo sistema judicial americano para o cumprimento da pena de morte e de retratos de pessoas procuradas pela polícia.















Com uma sequência de retratos de Jackie Kennedy, temos imagens de um dos momentos mais dramáticos da história política norte-americana: o assassinato do presidente John F. Kennedy, seu marido, ocorrido em 1963. Esse e outros temas políticos como os embates ocorridos durante o movimento de luta pela igualdade de direitos civis para a população negranos Estados Unidos foram muito retratados por Warhol.


Com a obra Nuvens prateadas, trabalho criado em 1966, o artista anunciou sua despedida da pintura para uma dedicação praticamente integral que pretendia dar ao cinema.

Andar em meio aos balões retangulares prateados, cujo formato nos remete a travesseiros, nos evoca sensações de diversão. Vendo nossa própria imagem refletida nos balões, que assim podem funcionar como espelhos, temos a ideia de superação da lei da gravidade, vendo fragmentos de nossa imagem flutuar.


Outro fato que salta à vista são as diversas perspectivas distorcidas que se apresentam aos nossos olhos conforme os balões mudam de posição.


O prateado atraiu sensivelmente a atenção de Andy Warhol ao ponto de, em seu famoso estúdio de produção, a Factory, ou simplesmente, "Fábrica", as paredes serem completamente revestidas de papel prateado.


Nas palavras do artista, "Prata era o futuro... era o espacial... prata era também o passado - a tela prateada... e talvez mais do que qualquer coisa, prata era o narcisismo".


Warhol começou a realizar obras com a imagem de Marilyn em 1962, logo após a misteriosa morte da atriz.


Muitas questões mobilizaram a atenção de Andy Warhol durante a realização destas gravuras. Dentre elas podemos destacar a evocação da beleza da diva pop como algo que poderia sobreviver e desafiar o tempo como um ideal de glamour.


Outra possibilidade é a inevitável comparação de sua imagem com aquelas mesmas dos produtos eternizados em suas obras, a exemplo das latas de sopa Campbell, colocando ambas num mesmo patamar, como objetos de consumo da sociedade.


Em termos plásticos, a seriação permitiu que o artista pesquisasse as relações entre as cores e formas, uma vez que cada gravura tornava-se única devido ao trabalho artesanal de seleção e aplicação das camadas de tinta que dariam forma e volume aos detalhes do rosto da atriz.


O fato de esta série ter sido realizada logo após a morte da atriz também não deve ser considerada coincidência. A constatação da morte como inevitável foi tema de outras obras do artista, como nas séries Desastres de carros e Cadeiras elétricas, ambas realizadas à mesma época.


Neste sentido é inevitável compararmos estas cenas relacionadas à morte, as escolhas de Warhol em exibi-las em contraste com intenso colorido das telas. Este constraste pode ser pensado porque as cenas são, para o artista, o fruto de um certo modo de vida americano, voltado ao consumo, até mesmo das imagens da morte.



Tendo realizado fotografias polaróides de várias celebridades como Liza Minnelli e Sylvester Stallone, vamos dar uma olhada na imagem ao lado chamada Arnold Schwarzenegger, 1977, Polaroid Polacolor 108 - 10,8 x 8,6 cm.

Considerando suas origens e o desenrolar de sua vida, ninguém melhor que Schwarzenegger exemplifica a realização do "sonho americano" que permeia toda a produção de Warhol.

Nascido na Áustria, fez fama nos Estados Unidos como o maior fisiculturista de todos os tempo, ao mesmo tempo em que investia em sua carreira em Hollywood. Warhol percebeu o potencial do fisiculturista/ator que - posteriormente -, graças à forma física, conseguiu fama por atuar em filmes de ação, e com o tempo galgou posições políticas, sendo eleito governador do Estado da Califórnia.


Para finalizar vamos falar da imagem que retrata Pelé, Pele, serigrafia sobre papel Curtis Rag - 114,3 x 88,9 cm. Ela foi realizada na época em que o jogador de futebol morava nos Estados Unidos com sua família e jogava no New York Cosmos, onde encerrou sua carreira exportiva.

Pelé é brasileiro, negro, uma celebridade latino-americana que, devido ao seu desempenho brilhante como esportista, foi convidado a atuar profissionalmente e viver nos Estados Unidos da América. Viveu uma história de superação das condições humildes em que nasceu e cresceu em seu país de origem, o que, de certa forma, o alinha à ideia de sucesso e reinvenção.
Na gravura, Pelé, sorridente, ostenta uma bola de futebol com a qual toca a cabeça, mimetizando ua "cabeçada". Na bola podemos ver estampados seu nome e ua estrela, compondo uma imagem que sugere sucesso e satisfação ao mesmo tempo.
Controverso, Andy Warhol se apresenta, apesar de ter sempre utilizado os recursos da fotografia, como um artista que ajudou a construir essa imagem do norte americano que se tem hoje. Para o bem ou para o mal, suas criações continuam influênciando gerações.

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