sábado, 19 de maio de 2012

O TEMPO E OS TEMPOS NA FOTOGRAFIA - PARTE 2

Fotografia e pintura em crise de identidade
As evidentes vantagens e as severas críticas atribuídas à recém-nascida fotografia, quando confrontada com a milenar pintura, acabam fazendo com que as duas formas de representação, cada uma seu modo, reescrevam seus caminhos. Entre os pintores, o estilo figurativo, caracterizado por representar imagens do mundo exterior de forma inteligível, perde força. As telas da segunda metade do século XIX passam a privilegiar as sensações em detrimento do visível, uma tendência que talvez tenha em Vicente Van Gogh o representante mais significativo. Dono de um estilo intuitivo, o pintor holandês costumava extrair da natureza um colorido
incomum, marcado pela explosão do amarelo nos girassóis ou nos trigais, e pelas formas revoltas, representadas por árvores retorcidas e estrelas rodopiantes. "Procuro pintar o retrato das pessoas como eu as sinto e não como eu as vejo", costumava dizer Van Gogh, que é considerado o precursor do expressionismo. A trajetória do impressionismo, onde se destacaram pintores como Claude Monet e Auguste Renoir, também rompia os cânones da pintura clássica. Os impressionistas valorizavam o emprego das cores puras e dissociadas nos quadros, aplicadas em pequenas pinceladas, cabendo ao observador combinar as várias tonalidades e projetar o resultado final. De lá para cá, sucederam-se o cubismo capitaneado por Pablo Picasso, o surrealismo representado por Salvador Dali e Joan Miró e os abstratos de toda ordem, sinalizando que a pintura jamais seria a mesma depois de Daguerre. Já o percurso da fotografia se deu na direção oposta. Preocupados em garantir à fotografia o status de obra de arte, um grupo expressivo de fotógrafos integra, a partir da segunda metade do século XIX, um movimento denominado pictorialismo, caracterizado pela tentativa de reproduzir em suas fotos a temática e os enquadramentos característicos das telas de pintura. Entre os fotógrafos dessa fase está o francês Félix Nadar, que em 1858 foi o primeiro a realizar fotos aéreas com o auxílio de um balão. Na última década do 
século XIX, os pictorialistas estavam no auge do sucesso e suas fotografias, ora alterando a granulação e os tons, ora modificando ou suprimindo elementos para tornar as fotos semelhantes às pinturas e aquarelas, acabaram colocando em xeque o caráter meramente documental da fotografia. Em 1902, o fotógrafo norte-americano Alfred Stieglitz propõe uma volta às origens, fundando o movimento da foto-secessão, que defende a fotografia com expressão artística própria, sem retoques ou manipulação. Entre 1903 e 1917, como editor da cultuada revista Camera Work, Stieglitz integra a fotografia nas artes de vanguarda, um trabalho que ele consolida como diretor de três galerias - 291 Gallery, The Intimate Gallery e An American Place -, onde expõe trabalhos dos principais fotógrafos e pintores do período. Desse movimento deriva o conceito de straight photography, preconizando uma espécie de exaltação à pureza fotográfica, cujo maior expoente talvez tenha sido o Grupo f/64, no qual despontaram as paisagens fotografadas por Ansel Adams. 
Em 1888, alheio às discussões conceituais que permeavam a produção fotográfica de vanguarda, um norte-americano visionário lança no mercado a primeira câmera portátil e acaba se constituindo no grande responsável pela popularização em larga escala da fotografia amadorística. Seu nome, George Eastman, não é tão conhecido como o da pequena câmera de madeira que o consagrou, cujo nome não significa nada em língua alguma, mas pode perfeitamente ser pronunciado em todos os idiomas: Kodak. Além da facilidade de manejo, a revolucionária câmera inova ao apresentar o filme de rolo, que permitia a produção de fotos em série, em vez das chapas até então utilizadas pelas câmeras de grande formato, que registravam apenas uma imagem, sendo em seguida substituídas. Outra vantagem para o consumidor era a relação custo-benefício. Pelo preço de 25 dólares comprava-se uma Kodak equipada com um filme de 100 exposições, ao final das quais o cliente encaminhava a câmera para a empresa Eastman Corporation, em Rochester, que cobrava 10 dólares para revelar o filme e entregar as cópias ao proprietário, devolvendo o aparelho já devidamente equipado com um novo rolo de filme. As inúmeras facilidades justificavam o inspirado slogan "você aperta o botão, nós fazemos o resto", adotado por George Eastman. 
O sucesso da Kodak superou as mais otimistas expectativas e obrigou o mercado internacional, nos anos subsequentes, a suprir a enorme demanda por câmeras portáteis, inaugurando um tempo em que tudo era fotografável. A memória individual e a memória do mundo passaram a estar indissociavelmente ligadas ao imenso contingente de pessoas que deixaram de ser fotografadas nos estúdios e passaram a fotografar nas ruas. 

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